Por Fernanda Macedo

As micros e pequenas empresas representam 99% dos estabelecimentos do País, 52% dos empregos formais do setor privado não agrícola e quase 42% da massa de salários paga aos trabalhadores destes estabelecimentos, segundo o Anuário do Trabalho na Micro e Pequena Empresa 2014 publicado pelo IBGE.

Embora sejam tão representativas na economia brasileira, ainda são poucos os pequenos negócios que estão atentos ao seu potencial inovador em sustentabilidade. Mesmo assim, essa é uma tendência. Uma publicação da Sustainability destaca que empresas com esse carácter costumavam capturar apenas um pequeno nicho ou mercado de elite, mas agora estão crescendo mais rapidamente e ajudando a acelerar o declínio de modelos de negócio que têm se tornado obsoletos.

Modelos de negócio são um ponto central nesse debate. Eles podem ser entendidos como a estrutura implícita que determina a forma pela qual as empresas criam, entregam e capturam valor. Criar algo que possa resolver o problema ou a necessidade de alguém e transformar essa criação em um produto ou serviço são formas de desenvolver e entregar valor. Já a captura corresponde ao que a empresa obtém do mercado como retorno da entrega, por exemplo, informações do usuário, retorno financeiro, melhorias na qualidade de vida etc.

Inovar nessa esfera pode ser decisivo para lidar com os desafios do século XXI. “O que precisamos não são apenas melhores produtos e processos, mas modelos de negócios radicalmente diferentes. Precisamos de empresas e indústrias cujas estruturas subjacentes causam, na pior das hipóteses, nenhum impacto negativo e, na melhor das hipóteses, contribuem para a regeneração e restauração do capital natural, humano e social”, ressalta a mesma publicação [veja aqui as diferenças entre os tipos de inovação].

Mas não é fácil chegar a este objetivo. Uma rápida olhada neste mapa do sistema de inovação deixa claro como este é um campo complexo. O ambiente no qual os atores envolvidos na inovação interagem e trocam informações, conhecimento, recursos e outros apoios é conhecido como ecossistema. E, mais recentemente, uma maior atenção tem sido dada a um outro ambiente de trocas: as cadeias de valor.

Por meio de sua cadeia, uma grande empresa pode encontrar um campo fértil de inovação. Por exemplo, a GlaxoSmithKline, companhia farmacêutica multinacional britânica, resolveu destravar algumas barreiras que levavam frequentemente a questionamentos éticos sobre o seu negócio.

Em 2013, a empresa anunciou que deixaria de pagar médicos por promover seus medicamentos e de vincular a remuneração dos representantes de vendas ao número de prescrições que os médicos faziam – essas eram práticas consideradas como conflitos de interesse na indústria farmacêutica. A Glaxo disse que passaria a pagar os profissionais de vendas com base no seu conhecimento técnico e na qualidade do serviço que prestam, ou seja, mudariam completamente os incentivos da sua força de vendas, e também modificariam os incentivos para os médicos, reduzindo a quantidade de medicamentos desnecessários prescritos.

Essa mudança é uma forma de desbloquear outras oportunidades de inovação e criação de valor que atendem de forma mais atual às necessidades de clientes.

Mas as grandes empresas não são as estrelas dessa tendência, por mais que seja possível citar diversos exemplos. A principal fonte de novos modelos de negócio tem vindo de empresas que projetam essa ideia desde o início, ou seja, já nascem com esse objetivo em mente. Às grandes cabe um importante papel de ajudar a evoluir e dar escala a esses negócios, ao mesmo tempo que se beneficiam dessa inovação. Essa é uma tremenda oportunidade para pequenos empreendedores.

Grandes empresas têm investido em aquisições, parcerias, expansão de suas cadeias e, mais recentemente, em programas de apoio ao empreendedorismo, como plataformas de inovação, fundos próprios de investimento de risco, ferramentas de impacto etc. Alguns casos são o Braskem Labs (programa de apoio a iniciativas de química e plástico), AES Brasil Inovação (fomento a inovação nas áreas de Internet das Coisas, Armazenamento de Energia, Geração Distribuída, Eficiência Energética e Veículo Elétrico), além de alguns fundos como o BR Startups (com participação do Banco Votorantim).

O Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces) da FGV-Eaesp já vem trabalhando a inovação em cadeias de valor há alguns anos. Mas esse objetivo foi fruto de uma trajetória de aprendizados. O trabalho do centro com o empreendedorismo começou em 2004, na parceria com o World Resources Institute (WRI), pelo projeto internacional New Ventures (leia mais aqui).

Nessa experiência, o GVces era responsável pela seleção e mentoring de empreendedores com planos de negócio com atributos socioambientais e pela aproximação dos melhores planos com potenciais investidores. A expectativa era de ver investimentos sendo fechados, mas o apetite do mercado brasileiro a negócios de risco, como estes empreendedores ainda em estágio inicial, é muito pequeno quando comparado com a cultura americana, por exemplo.

A conclusão, após oito anos de New Ventures (de 2004 a 2011) e muitos casos interessantes de empreendedorismo, foi a de que somente seria possível trabalhar esses pequenos negócios a partir de seus clientes, os primeiros interessados em seus produtos e serviços. Foi nesse contexto que nasceu o projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor, em 2012, que busca promover tal inovação no contexto da cadeia de valor das grandes empresas.

A partir daí, o projeto vem promovendo ciclos anuais temáticos e reunindo pequenas e grandes empresas em uma mesma sala para tratar de desafios e promover novas oportunidades. No ciclo 2012, o tema escolhido para inaugurar o projeto foi gestão de fornecedores, seus riscos e oportunidades e o relacionamento com pequenas empresas. Em 2013, o grupo de empresas selecionado discorreu sobre resíduos e pós-consumo, ou seja, gestão de resíduos, logística reversa, ecologia industrial, instrumentos econômicos e inclusão social por meio desse tema. No ciclo 2014, voltou-se para o desenvolvimento local, a partir da perspectiva de um grande empreendimento e as relações decorrentes desse projeto com sua cadeia de valor. Em 2015, o tema foi distribuição e logística.

Neste ano de 2016, o projeto segue com atividades do Grupo de Trabalho (GT) Fornecedores, que vem desde o ciclo 2013, apoiando a construção coletiva de instrumentos e de ferramentas que auxiliem as empresas na gestão de suas cadeias de suprimentos, considerando aspectos de sustentabilidade.

As grandes empresas devem estabelecer para além de uma gestão responsável das externalidades em suas cadeias, formas de engajar e envolver seus fornecedores na busca por soluções inovadoras. Seu poder de influência precisa ser direcionado para este objetivo se elas quiserem garantir que terão o fôlego necessário para se adaptar aos dilemas que vivemos neste século [veja mais neste vídeo].

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