Por Oscar Freitas Neto

“O.k., já entendi quais são os impactos da indústria da moda. Mas o que eu devo fazer? Onde posso comprar minhas roupas?” Essa é uma dúvida comum a todos nós, consumidores conscientes. No entanto, em vez de ficar aflitos à espera de uma resposta, a dica é retroceder alguns passos e pensar melhor.

Desejo não está exatamente relacionado à necessidade. Antes de tudo, reflita: “Será que preciso mesmo desta peça?” As vitrines atraentes e a palavra “promoção” quase “gritam” na nossa cara. O consumo muitas vezes é questão de impulso. Respire!

Comprar nos dá um prazer momentâneo, mas qual a utilidade de uma roupa esquecida no fundo da gaveta? Falando em fundo da gaveta, é importante olhar lá. É bem provável que você já tenha alguma peça que funcione do mesmo jeito que a blusinha da vitrine.

Talvez você precise de uma roupa para uma ocasião específica. Casamento, festa ou só algo que combine com sua calça para sair com os amigos. A resposta pode estar aí mesmo, com os amigos. Emprestar uma peça pode ser o suficiente e, na próxima, você é que pode emprestar. Assim, devagarzinho, vamos substituir o “comprar” pelo “compartilhar”.

Organizar uma troca de roupa também é uma ótima opção de renovar o guarda-roupa sem gastar. Se quiser mais diversidade, existem bazares como o Trocadeira, com edições organizadas em locais diferentes na cidade de São Paulo. Paga-se apenas um valor de entrada e você pode levar suas roupas e trocá-las por outras.

Em todo caso, você pode alugar. E não é só aquele terno para festa, hoje há iniciativas que disponibilizam todo tipo de roupa. Em São Paulo, empresas como a Roupateca, Entre Nós e a Blimo – Biblioteca de Moda, oferecem serviço como verdadeiras Netflix das roupas. Você paga um valor mensal e tem direito de pegar emprestado de um guarda-roupa bem diversificado. De tempos em tempos, a Lucid Bag organiza encontros nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Goiânia, promovendo seu Clube de Empréstimos, que também oferece peças para usar por um fim de semana.

O My Open Closet propõe abrir os armários. A empresa atua como um marketplace onde você pode colocar as roupas para circular enquanto não surge a ocasião de utilizá-las. Em Belo Horizonte, o Armário Compartilhado oferece serviço semelhante.

Mas, afinal, você percebe que é hora de ter mais uma peça para chamar de sua. Chegou o momento de substituir a camiseta que não usa mais e a calça que ficou apertada. Por que não levar essa camiseta e calça para um brechó e ganhar um desconto em outras peças? Assim, você poupa dinheiro e dá utilidade às suas roupas antigas.

Quando não é possível encontrar em brechós o que se quer, resta ir às lojas convencionais. Mas temos mais algumas questões a considerar antes de comprar. O importante é buscar informações sobre a marca: “Que práticas da empresa contribuem para uma sociedade melhor? Como se dá o processo produtivo?”

Não sabe como achar essas informações? Procure comprar em produções locais, é muito mais fácil descobrir esse tipo de dado do que em grandes empresas multinacionais com a cadeia produtiva dispersa pelo mundo. Além disso, você incentiva a produção e as boas práticas de empresas locais. É importante ficar atento às condições de trabalho e se todos são remunerados de forma justa. Quem sabe você consegue conhecer quem trabalha lá ou mesmo o dono? Ligar o produto a quem o fez traz mais significado à roupa. Muito além do valor monetário, o que você veste resulta do esforço e da criatividade de alguém.

Comprar de marcas locais também reduz as emissões provenientes do transporte de milhares de quilômetros de distância. Embora ainda haja más condições de trabalho na indústria da moda no Brasil, os funcionários têm alguma proteção garantida por leis trabalhistas que podem não existir em outros países. Além disso, comprando produtos brasileiros, você valoriza nossos talentos.

Com tantas marcas produzidas no Brasil e no mundo afora, você pode perguntar-se: “Quem fez minhas roupas?” Este é o mote do Fashion Revolution, um movimento global que luta pela transparência no mundo da moda e defende que façamos toda essa reflexão antes de sair às compras.

“O mundo de hoje tem desconectado as pessoas das pessoas e valorizado muito a relação das pessoas com objetos. Essa pergunta ajuda a entender que, à sombra dos nossos produtos há muita gente dedicando seu trabalho, sua vida, sua energia para que aquilo seja feito”, afirma Marina de Luca, coordenadora de comunicação do Fashion Revolution Brasil.

A cartilha Perguntas para um consumo mais consciente é uma produção em conjunto com o movimento. “Quando você compra, está financiando a forma de trabalho de quem fez aquele produto. Refletir sobre o nosso consumo é muito importante para usar esse ato como uma poderosa ferramenta de transformação”, comenta De Luca.

Investigue e pressione

Em parceria com a University of Exeter, o Fashion Revolution criou um curso que ensina como descobrir mais informações sobre nossas roupas e pressionar a indústria da moda por mudanças que reduzam seus impactos.

Cada vez mais as marcas têm oferecido informações sobre suas práticas e cadeia de fornecedores. Dessa forma, o site da empresa é um primeiro passo para iniciar a investigação. Outra fonte de informação é o aplicativo Moda Livre (Android e Apple), criado pelo Repórter Brasil, que mostra as medidas tomadas pelas empresas para evitar o trabalho escravo.

Se a lógica do fast fashion é o consumo rápido e incessante, as roupas devem ser muito baratas para serem substituídas e sua qualidade deve ser baixa para que não durem muito, o que também pode ser chamado de obsolescência programada. De modo a quebrar esse ciclo, evite comprar roupas com valor muito baixo. Lembre-se de que há muitas pessoas no processo da confecção da peça e, se o preço é tão baixo, alguém está “pagando” essa conta. Qual o real custo dessa roupa, se considerarmos os aspectos sociais e ambientais envolvidos?

Preferir roupas de boa qualidade, que durem muito tempo, é uma forma de combater o fast fashion. Roupas não devem ser descartáveis. Outra boa pedida é levar o tênis no sapateiro ou reforçar uma costura que está soltando, para aumentar sua durabilidade.

Não é fácil pensar em tudo isso, leva tempo de pesquisa e reflexão, e ainda é preciso domar os impulsos da nossa cultura consumista. Contudo, é uma mudança necessária.

Mas, pensando bem, consertar roupas de que gostamos muito, garimpar peças em brechós e organizar trocas com os amigos podem ser atividades muito prazerosas. Essas são atitudes que fazem a diferença e, pouco a pouco, vão mudando nossos valores e a forma com que vemos o mundo.

A “cartilha” abaixo orienta que perguntas devemos nos fazer. Fique à vontade para divulgar!

Cartilha

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