Por Magali Cabral

Primeiro os consumidores questionaram a qualidade das linhas fast food dos alimentos industrializados, dando início a um movimento em prol de uma nutrição saudável, preferencialmente orgânica e produzida localmente. Essa onda de conscientização alimentar soou como um chamado para as novas gerações de designers que, ao ingressarem no ramo da moda, se deparavam com uma indústria fast fashion operando de um modo linear e antiquado, com poucas iniciativas de inserção de sustentabilidade nas linhas de produção.

Essa correlação foi feita pela designer de moda Marina Colerato, fundadora e editora do site Modefica, onde escreve sobre temas pouco explorados pelas grandes publicações de moda, como economia circular e sustentabilidade. Para ela, assim como o setor de alimentação logo reagiu à demanda dos consumidores, na moda também começam a surgir alternativas para quem gosta de um guarda-roupa renovado mas ao mesmo tempo se preocupa com a pegada ecológica e os impactos sociais por trás das peças.

Bibliotecas de roupa, bazares de troca, brechós, oficinas de upcycling e franquias que transformam vestuários estão entre os principais modelos negócios que aproveitam as peças em circulação quebrando a lógica que move o fast fashion – quer dizer, além de promover a ideia do consumo consciente, esses modelos escapam de ter que criar uma nova linha de produção. E há também projetos socioambientais, como o Panosocial, voltado para a ressocialização de ex-detentos com a sua reintegração na cadeia produtiva; e prestadores de serviços como o Moda Limpa, uma agenda de fornecedores de insumos “do bem”, e o Roupa Livre, plataforma que faz conexões entre vários assuntos da moda sustentável.

Embora todas essas iniciativas encham de esperança aqueles que esperam testemunhar uma mudança substancial no mundo das coisas, são alternativas de pequena escala e voltadas para um público de nicho, que já teve suas necessidades básicas atendidas. Para que o impacto realmente aconteça no setor da moda, é sabido que as inovações precisam também acontecer em grande escala, nas grandes indústrias.

Como afirma Colerato, a gente vive uma crise do modelo industrial e é o momento mesmo de aflorarem outras coisas. Fã das bibliotecas de roupa – modelo de negócio em que, mediante o pagamento de uma mensalidade, clientes podem retirar um certo número de peças de roupa e usá-las por um determinado tempo –, a designer ressalva que os formatos alternativos no Brasil ainda engatinham em relação aos movimentos internacionais. “Quando a gente olha de perto, vê que ainda falta sustentabilidade financeira para investir, por exemplo, em logística, o que ajudaria a dar escala aos negócios”, diz.

Diferentemente da indústria de alimentos, a moda é repleta de elos ao longo da cadeia produtiva, quase todos com questões socioambientais a serem solucionadas. Segundo a designer, esse modelo industrial precisa mudar, mas ninguém sabe ainda o que colocar no lugar. “A nossa única certeza, por enquanto, é que a moda opera de forma linear e a gente precisa de um método de produção circular. Esses novos modelos de negócio são experimentos para descobrir como se fazer a transição”, afirma (mais sobre Economia Circular aqui).

As ambições não param aí. O combate ao consumismo é uma vertente dessas novas propostas de negócio (apesar de parecer uma contradição para quem busca viabilidade financeira) e um desafio adicional. Afinal, com tanta desigualdade social no Brasil não dá para esperar que uma classe que ainda não ascendeu queira pular a fase do consumo. As dificuldades são muitas, mas Marina Colerato crê que, mesmo sem fazer muito dinheiro, as empreendedoras da moda sustentável deverão seguir em frente sempre pela causa.

Desfile ético

Moda é um tema com apelo em todas as faixas etárias e em todos os gêneros. A ética idem. O aplicativo Moda Livre, para celulares, que aponta o comportamento de grandes marcas varejistas em respeito aos direitos trabalhistas em sua cadeia produtiva, dá uma ideia desse alcance: já registrou mais de 100 mil downloads, segundo informação do jornalista e cientista social Leonardo Sakamoto, presidente da ONG Repórter Brasil, idealizadora da ferramenta.

Com consumidores ávidos por uma moda ética e com todas as iniciativas que surgem atualmente pelo Brasil, um grupo ligado ao Fashion Revolution (movimento internacional que denuncia impactos socioambientais na indústria da moda e estimula o consumo consciente de roupas) realiza em São Paulo, de 22 a 24 de novembro, o Brasil Eco Fashion Week (BEFW), a primeira semana de moda sustentável no País. As organizadoras esperam atrair um público em torno de 10 mil pessoas nos três dias do evento.

Fernanda Simon, coordenadora nacional do Fashion Revolution Brasil e coidealizadora do BEFW, explica que o País já sente a necessidade de um espaço em que todas essas marcas e movimentos alternativos da moda se reúnam para fomentar negócios. De um lado, existem várias marcas que trazem todo um princípio de sustentabilidade e uma cadeia ética, mas que ficam isoladas em suas cidades. De outro, há os consumidores querendo saber quais são as marcas mais legais de serem consumidas.

O BEFW apresentará 18 desfiles. Metade de marcas foram convidadas e a outra metade selecionada entre mais de 100 inscritos – pelo menos cerca de 50 participantes vão expor suas coleções em um showroom para vendas no varejo e no atacado. A seleção dos participantes foi feita por uma curadoria que considerou quesitos socioambientais, de design e de criatividade.

Multidisciplinar, o evento, além de palestras e workshops, terá também o Espaço Lab. A iniciativa reunirá fornecedores, protótipos e inovações da indústria da moda para ressaltar a importância da tecnologia e da gestão de processos ligados à sustentabilidade e estará a cargo dos estudantes da disciplina Formação Integrada para a Sustentabilidade (FIS), oferecida pelo do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-Eaesp (GVces) em parceria com a Moda Limpa, uma plataforma onde os próprios usuários cadastram fornecedores e marcas que consideram sustentáveis. “Vamos mostrar as principais soluções tecnológicas que estão aparecendo e que já podem ser adotadas por pequenas e grandes empresas que queiram diminuir o seu impacto social e ambiental”, explicou Marina de Luca, do Moda Limpa.

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Imagem: Jo Naylor/Flickr Creative Commons

De exemplo em exemplo

Natural Cotton Color – A iniciativa da empresária paraibana Francisca Vieira, com presença certa no desfile da BEFW, usa como base de suas criações o algodão naturalmente colorido, cuja pluma já nasce com a cor do produto final e livre de aditivos químicos. O algodão colorido foi desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e, por não precisar de qualquer tipo de tingimento químico, economiza 87,5% da água que seria consumida em um processo convencional de produção e acabamento de malha ou tecido. Além da matéria-prima diferenciada, a Natural Cotton Color é uma empresa que fomenta negócios com costureiras locais e seus designs trazem a característica do artesanato brasileiro, porém com uma linguagem de moda.

Bibliotecas de roupas – Imagine uma viagem muito especial de um fim de semana, ou de uma semana inteira, e de repente você recebe em casa uma mala já pronta com roupas praticamente novas e combinando com o seu estilo. Esse tipo de serviço é oferecido pela Roupateca, Entre Nós, uma biblioteca de roupas, que funciona em um bairro da Zona Oeste de São Paulo. “Nossa clientela já virou a ‘chavinha’ em relação ao modo de consumo. Isto é, já percebeu que é muito mais legal ter acesso do que ter a posse”, comenta a designer de moda Daniela Ribeiro e idealizadora do projeto. A mala de viagem para um fim de semana contém sete peças de roupa e custa R$ 240 – a cliente pega na sexta-feira e entrega na segunda. A mala para uma semana, com 14 peças, custa R$ 480.

Mas não é só de malas de viagem que vive a Roupateca, Entre Nós. Para se tornar membro e poder usar o acervo sempre que quiser, é preciso assinar um plano de R$ 100, R$ 200 ou de R$ 300 por mês. O que muda é a quantidade de peças que a pessoa retira a cada vez. A opção de R$ 200, por exemplo, permite a retirada de três peças de roupa por vez, ou seja, por essa mensalidade a cliente pode trocar as três peças que pegou inicialmente quantas vezes quiser desde que devolva limpas as anteriores. A assinante de R$ 100 retira uma peça a cada vez e a de R$ 300, seis peças.

Guarda-roupa compartilhado – Quem for um pouco mais velho vai se lembrar de que em um passado não muito distante era comum fazer trocas de roupas com as amigas ou irmãs. Essa era uma prática comum até 20 anos atrás, antes do ciclo vicioso do consumismo, e hoje ganhou nome e sobrenome: consumo consciente. E tornou-se negócio. A Lucid Bag é especializada em guarda-roupa compartilhado e itinerante, construído pelos próprios participantes. Os associados ao negócio doam ou emprestam roupas e, em troca, têm acesso às peças que já estão lá. O empreendimento conta também com peças de marcas e designers parceiros de slow fashion que dispõem de itens únicos para empréstimo e experiência de pré-compra. Entre as marcas parceiras estão a Insecta Shoes, Casulo de Moda Coletiva, Salamandra do Fogo, Naya Violeta, Think Blue, entre outras.

Segundo a idealizadora e fundadora da empresa Luciana Nunes, todos os meses o guarda-roupa é refeito e montado novamente com apoio dessas marcas e dos associados, o que garante variedade de empréstimos para os clientes e colaboradores. A operação é parecida com a da biblioteca de roupas. No caso da Lucid Bag, 20% do lucro obtido com o aluguel das peças vão para a pessoa que emprestou a roupa ao projeto. “Nosso objetivo é trazer de volta ao mercado peças legais que estavam paradas no armário. Acreditamos que dividir o lucro com quem participa é a melhor forma de retribuir sua participação na comunidade”, afirma.

Upcycling – Como diz a estilista e diretora criativa do projeto Re-Roupa, Gabriela Mazepa, upcycling “nada mais é do que você pegar uma peça que não está mais sendo usada, dar uma melhorada e voltar a usar”. Durante debate sobre moda sustentável no evento Gaveta, realizado em outubro no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, ela brincou com a plateia dizendo que, “para fazer upcycling, é necessário lançar mão da cultura maker, ou seja, as costureiras”.

Brincadeiras à parte, as atividades do Re-Roupa vão um pouco além das reformas de peças fora de moda. Trata-se de uma metodologia que propõe a criação de roupas novas com o uso de matérias-primas que eram consideradas resíduo: fins de rolo de tecido, retalhos, roupas com pequenos defeitos. A proposta surgiu da espantosa estimativa de que 170 mil toneladas de resíduos têxteis são descartados anualmente no Brasil e 85% desse material vai parar em aterros sanitários e podem levar centenas de anos se decompondo, dependendo do tipo de fibra.

O ateliê do Re-Roupa fica no Rio de Janeiro e trabalha em parceria com costureiras empreendedoras de comunidades locais, em relações próximas e justas. O Re-Roupa também desenvolve oficinas e cursos para promover a experiência deste processo em ações itinerantes pelo Brasil.

Responsabilidade socioambiental – Como as demais empresas relacionadas aqui, a Panosocial já nasceu com responsabilidade socioambiental atrelada a sua origem. E veio ainda com um enorme diferencial: além de usar matéria-prima ecológica e adotar processos produtivos sustentáveis, a iniciativa promove a ressocialização de ex-detentos, empregando-os em sua rede de produção de roupas, uniformes, acessórios e produtos customizados. O designer e sócio-fundador Gerfried Gaulhofer crê que, dessa forma, a Pano Social contribui para diminuir a reincidência criminal e para a paz social.

A fabricação das roupas segue o processo cradle to cradle (do berço ao berço). Para que isso seja possível, são utilizados apenas pigmentos naturais e algodão orgânico. “O papel social do negócio não é apenas vender camisetas e promover a ressocialização dos egressos do sistema prisional, mas também mostrar o impacto de uma simples compra através da venda dos produtos”, reforça a diretora-comercial e de produção Natacha Barros. “O consumidor final já percebe os movimentos e vai atrás de marcas com diferenciais.”

Conexões – A plataforma e aplicativo Roupa Livre, idealizado pela designer Mariana Pellicciari (ou apenas Mari Pelli, como é mais conhecida), de Florianópolis, trazem conteúdos que ajudam a quem quer mudar o jeito tradicional de consumir vestuário. Pelo site ou app é possível conectar iniciativas e pessoas que buscam “uma relação mais consciente, carinhosa e cuidadosa com o que vestem”. O Roupa Livre informa sobre eventos, livros digitais, faz mapeamento de iniciativas, produção de conteúdos etc. Por exemplo, se você estiver procurando um brechó ou uma costureira, e só informar a sua localização que a plataforma mostra no mapa os estabelecimentos mais próximos. No link “mapeamento de iniciativas” a própria Mari Pelli explica tudo o que tem para ser descoberto dentro do Roupa Livre.

Franchising – Os movimentos sustentáveis na cadeia têxtil também têm histórias de sucesso financeiro. Uma delas é a Arranjos Express, uma franchising com 90 lojas no Brasil que faz desde pequenos serviços de costura, como uma barra (bainha) de calça, até a uma completa customização de roupas, itens para o lar e peças para pets. Além de ter aderência às tendências de responsabilidade socioambiental, reforma e customização de trajes, é uma forma de reaproveitamento e, portanto, de lowsumerism – movimento que prega, segundo o time que faz o blog Trocaria, três atitudes simples e de grande efeito: pensar antes de comprar; viver apenas com o que é realmente necessário e buscar alternativas de menor impacto para os recursos naturais, entre as quais fazer, trocar e consertar.

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