{"id":1347,"date":"2017-02-03T09:27:33","date_gmt":"2017-02-03T12:27:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.p22on.com.br\/?p=1347"},"modified":"2022-02-22T11:01:44","modified_gmt":"2022-02-22T14:01:44","slug":"as-populacoes-locais-devem-se-preparar-para-a-chegada-de-grandes-obras-e-os-empreendedores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.p22on.com.br\/2017\/02\/03\/as-populacoes-locais-devem-se-preparar-para-a-chegada-de-grandes-obras-e-os-empreendedores\/","title":{"rendered":"As popula\u00e7\u00f5es locais devem se preparar para a chegada de grandes obras.  E os empreendedores?"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Am\u00e1lia Safatle<\/em><\/p>\n<p>Existe um senso comum de que as popula\u00e7\u00f5es e os territ\u00f3rios impactados por grandes obras devem se preparar para a chegada do empreendimento, e dali procurar extrair o m\u00e1ximo de oportunidades ao mesmo tempo em que buscam prote\u00e7\u00e3o e adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 nova realidade. Mas Francisco de Assis Costa, professor titular do N\u00facleo de Altos Estudos Amaz\u00f4nicos (Naea), provoca outro olhar sobre essa quest\u00e3o: os empreendedores precisam igualmente se preparar antes de ingressar nesses territ\u00f3rios para os primeiros contatos com as sociedades locais.<\/p>\n<p>\u201cPara serem sin\u00e9rgicas, as rela\u00e7\u00f5es entre grandes empreendimentos e sociedades locais dever\u00e3o basear-se em di\u00e1logo qualificado por conhecimento e a\u00e7\u00e3o\u201d, afirma nesta entrevista concedida por email \u00e0 <em>P22_ON<\/em>. Costa defende uma rela\u00e7\u00e3o baseada no conhecimento m\u00fatuo das raz\u00f5es e possibilidades um do outro como forma de descobrirem ou criarem interesses comuns e oportunidades. \u201cPara tanto, todos os envolvidos devem se preparar\u201d, diz ele, que tamb\u00e9m leciona no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Economia da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA).<\/p>\n<p>Leia abaixo a \u00edntegra da entrevista.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor define desenvolvimento local?<\/strong><\/p>\n<p>Primeiro de tudo, \u00e9 bom ter presente que \u201cdesenvolvimento local\u201d \u00e9 um conceito que contrasta com as no\u00e7\u00f5es tradicionais de desenvolvimento que se apoiam ou no Estado ou nas for\u00e7as de mercado como promotores exclusivos da din\u00e2mica econ\u00f4mica e da mudan\u00e7a social. Na perspectiva do desenvolvimento local, entende-se que, superpondo-se a essas for\u00e7as fundamentais, agem tamb\u00e9m como determinantes do desenvolvimento as capacidades localmente enraizadas, manifestas na mobiliza\u00e7\u00e3o dos atores locais, nas intera\u00e7\u00f5es entre institui\u00e7\u00f5es locais e extralocais e no enredamento cooperativo entre empresas de um mesmo territ\u00f3rio. Esses elementos articulados conformam arranjo \u00fanico (entre institui\u00e7\u00f5es, empresas, mercados e governos) que d\u00e1 identidade a um territ\u00f3rio e o torna ator fundamental do desenvolvimento: sup\u00f5e-se que seja atrav\u00e9s desse arranjo que uma realidade local, um territ\u00f3rio, pode reorientar, ajustar, fazer convergir as grandes for\u00e7as do Estado e do mercado em prol de suas necessidades. De modo que, para a promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento (um processo multidimensional), e tendo em vista essas capacidades, \u00e9 necess\u00e1rio considerar os meios e mecanismos de realiza\u00e7\u00e3o de seus potenciais e as formas de supera\u00e7\u00e3o de suas limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>A maior parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira reside no meio urbano e distante da Amaz\u00f4nia. Por que o tema do desenvolvimento local \u2013 seja na Amaz\u00f4nia, seja em regi\u00f5es vistas como \u201cremotas\u201d por quem vive no eixo Sul-Sudeste \u2013 deve ser de interesse dessas pessoas?<\/strong><\/p>\n<p>Quest\u00f5es maiores do desenvolvimento brasileiro em geral e sua face urbana, em particular, como a persist\u00eancia da pobreza, a desigualdade social profunda e a inseguran\u00e7a de todo tipo a isso associada, remetem de imediato \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida e desenvolvimento das regi\u00f5es \u201cremotas\u201d: de l\u00e1 prov\u00e9m grande parte dos contingentes populacionais que realimentam alguns dos ciclos viciosos dessas mazelas. Se o local \u201cremoto\u201d \u00e9 a Amaz\u00f4nia, aumentam-se os riscos ambientais de situa\u00e7\u00f5es sociais prec\u00e1rias. J\u00e1 por isso, o desenvolvimento dessas periferias deveria ser um t\u00f3pico fundamental da agenda do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outras raz\u00f5es, agora positivas: o desenvolvimento das economias remotas potencia as capacidades produtivas das economias urbanas consolidadas, uma vez que destas ser\u00e1 demandada a maior parcela dos meios de produ\u00e7\u00e3o necess\u00e1rios e para elas fluir\u00e1 a parte mais nobre da demanda de consumo em expans\u00e3o na periferia. Por tudo, o desenvolvimento das regi\u00f5es remotas deveria ser tema de uma discuss\u00e3o difusa, profunda e permanente sobre o desenvolvimento brasileiro. A discuss\u00e3o n\u00e3o existe, deixando o tema a merc\u00ea de preconceitos. O que \u00e9 uma pena, porque a postura das pessoas, a vis\u00e3o de seus interesses em perspectiva ampla e de longo prazo, dependeria disso \u2013 assim como a pol\u00edtica para o desenvolvimento (local).<\/p>\n<p><strong>Por que o desenvolvimento local na Amaz\u00f4nia \u00e9 algo relevante em termos globais e tamb\u00e9m precisa merecer aten\u00e7\u00e3o internacional?<\/strong><\/p>\n<p>No resto do mundo, h\u00e1 diferentes modos de perceber as realidades locais da Amaz\u00f4nia e disso dependem as formas distintas de compreens\u00e3o do desenvolvimento local. Para nos limitar a uma polaridade importante, h\u00e1 uma tens\u00e3o entre for\u00e7as que tratam a Amaz\u00f4nia em estreita associa\u00e7\u00e3o com o significado da regi\u00e3o para a quest\u00e3o ambiental e a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e for\u00e7as que se orientam pelos interesses que as potencialidades da regi\u00e3o despertam em m\u00faltiplos setores prop\u00edcios \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de capital em larga escala.<\/p>\n<p>As primeiras, preservacionistas, veem o tema do desenvolvimento econ\u00f4mico da regi\u00e3o com desconfian\u00e7a, ou reservas. Sua disposi\u00e7\u00e3o principal \u00e9 de conter situa\u00e7\u00f5es que consideram ambientalmente insustent\u00e1veis; n\u00e3o de promover processos de desenvolvimento em longo termo, com esperan\u00e7a de sustentabilidade. Por isso, privilegiam em suas a\u00e7\u00f5es o controle de agentes e negligenciam estrat\u00e9gias baseadas em desenvolvimento local \u2013 com foco em aglomerados e territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>As for\u00e7as utilitaristas, por seu turno, carregam a convic\u00e7\u00e3o da propriedade e sufici\u00eancia de seu papel como agentes de desenvolvimento, tal como s\u00e3o. Para essas, as realidades sociais locais s\u00e3o refer\u00eancias remotas (mesmo quando fisicamente pr\u00f3ximas), incompreens\u00edveis, geralmente inc\u00f4modas. N\u00e3o veem o local como fonte de efici\u00eancia. No limite, o veem como seu reverso (o atraso, o anacr\u00f4nico) a ser superado, removido. Para essas for\u00e7as, o desenvolvimento local, como conceito, n\u00e3o tem significado. Como processo real, o desenvolvimento local, para elas, ou \u00e9 processo que dever\u00e1 reduzir o local \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a ou n\u00e3o \u00e9 nada.<\/p>\n<p><strong>Em sua opini\u00e3o, quais s\u00e3o as principais voca\u00e7\u00f5es do territ\u00f3rio amaz\u00f4nico quando falamos em desenvolvimento sustent\u00e1vel, considerando-se os aspectos ambiental, social e econ\u00f4mico?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o vejo como um ideal de sustentabilidade possa se estabelecer como projeto social concreto, duradouro e penetrante a ponto de promover inclus\u00e3o social massiva, se n\u00e3o incorporado em estrat\u00e9gias de desenvolvimento necessariamente entranhadas nos arranjos produtivos e institucionais que conformam os territ\u00f3rios. N\u00e3o \u00e9 com \u201carranjos improdutivos\u201d (incentivos para n\u00e3o produzir, por exemplo, como em algumas pol\u00edticas), mas com arranjos produtivos locais vibrantes que se garantir\u00e1 desenvolvimento de longo prazo com sustentabilidade e inclus\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1, na Amaz\u00f4nia, economias de grande porte em vastos territ\u00f3rios, particularmente no M\u00e9dio e Baixo Amazonas, do Par\u00e1 e do Amazonas, no Baixo Tocantins e em outras \u00e1reas estuarinas que t\u00eam desenvolvido ao longo de s\u00e9culos capacidades para lidar com o bioma amaz\u00f4nico e seus ecossistemas de modo equilibrado, demonstrando efici\u00eancia econ\u00f4mica em n\u00edveis variados ao longo do tempo. Essas economias ribeirinhas est\u00e3o vivas, t\u00eam apresentado crescimento com eleva\u00e7\u00e3o de produtividade na \u00faltima d\u00e9cada e meia, t\u00eam reduzido seus graus de pobreza e demonstrado vitalidade cultural, ao ponto de fazer da cultura local base de exporta\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso not\u00f3rio de Parintins, mas tamb\u00e9m de v\u00e1rias outras regi\u00f5es de coloniza\u00e7\u00e3o mais antiga.<\/p>\n<p>Existem outros territ\u00f3rios de ocupa\u00e7\u00e3o mais recente, como no Nordeste Paraense, na microrregi\u00e3o de Tom\u00e9-A\u00e7u, no Xingu, em Rond\u00f4nia e no Acre, nos quais se desenvolvem agriculturas diversificadas, ou mesmo sistemas agroflorestais adaptados, que reconstroem parte da biodiversidade perdida por usos precedentes, com efici\u00eancia econ\u00f4mica defens\u00e1vel. Por tr\u00e1s de tudo, cadeias de valor importantes, curtas e longas, s\u00e3o montadas em torno da produ\u00e7\u00e3o de frutas (o a\u00e7a\u00ed \u00e9 a mais conhecida, j\u00e1 com importante participa\u00e7\u00e3o industrial), de \u00f3leos essenciais e outras mat\u00e9rias-primas da ind\u00fastria cosm\u00e9tica e fitoter\u00e1pica de dimens\u00f5es e escopos variados. Todas essas economias locais s\u00e3o de base rural camponesa, de modo que seu sucesso econ\u00f4mico implica processos correlatos de eleva\u00e7\u00e3o do poder de compra e, presumivelmente, de qualidade de vida. Os que se preocupam com o desenvolvimento sustent\u00e1vel e inclusivo deveriam estar atentos e preparados para atuar em conson\u00e2ncia com esses processos, a fim de potenci\u00e1-los e fortalec\u00ea-los. Tamb\u00e9m para que se evite que sejam atropelados pela arrog\u00e2ncia e pelo poder de outros projetos de ocupa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Em que medida essas voca\u00e7\u00f5es t\u00eam sido exploradas e respeitadas? E em que medida t\u00eam levado em conta crit\u00e9rios de sustentabilidade?<\/strong><\/p>\n<p>Pol\u00edticas de desenvolvimento local devem observar e tratar o conjunto do que ocorre no territ\u00f3rio. Por uma parte, devem atentar para a din\u00e2mica econ\u00f4mica e media\u00e7\u00f5es institucionais aderentes ao territ\u00f3rio; por outra, para os processos produtivos ambientalmente degradantes e socialmente excludentes e aqueles que, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o inclusivos, preservadores ou restauradores. Usando a analogia da \u201cvoca\u00e7\u00e3o\u201d, em um mesmo territ\u00f3rio se podem observar processos movidos por (agentes e estruturas com) \u201cvoca\u00e7\u00e3o\u201d (racionalidade) destrutiva, preservativa ou regenerativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es ambientais. Entre os primeiros existem os \u201ccasos perdidos\u201d e os pass\u00edveis de \u201creeduca\u00e7\u00e3o\u201d, reorienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica deveria abordar com igual \u00eanfase todas essas idiossincrasias, fortalecendo as \u201cvoca\u00e7\u00f5es\u201d positivas e contendo ou reorientando as negativas. As pol\u00edticas atuais se concentram na conten\u00e7\u00e3o, por comando e controle externo \u00e0s realidades locais, das a\u00e7\u00f5es delet\u00e9rias, isto \u00e9, dos efeitos de \u201cvoca\u00e7\u00f5es\u201d destrutivas. Isso n\u00e3o fortalece os arranjos institucionais locais, tampouco atua sobre as voca\u00e7\u00f5es preservadoras e regenerativas. De modo que ficam de fora das pol\u00edticas visando sustentabilidade precisamente aquelas economias locais com voca\u00e7\u00e3o para a sustentabilidade. Ficam de fora, tamb\u00e9m, aqueles agentes com \u201cvoca\u00e7\u00e3o\u201d destrutiva, mas pass\u00edveis de \u201creeduca\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 falta \u00e0s pol\u00edticas mecanismos de reorienta\u00e7\u00e3o de tend\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>No contexto de grandes empreendimentos na Amaz\u00f4nia, existe um senso comum de que os territ\u00f3rios t\u00eam de ser preparados para chegada do empreendimento. T\u00e3o ou mais relevante que isso, podemos dizer que os empreendimentos \u00e9 que devem se preparar para chegar nos territ\u00f3rios?<\/strong><\/p>\n<p>Por tr\u00e1s da ideia de que a prepara\u00e7\u00e3o das sociedades locais para a chegada de grandes empreendimentos na Amaz\u00f4nia depende exclusivamente da virtuosidade da intera\u00e7\u00e3o entre uns e outros est\u00e1 a concep\u00e7\u00e3o de que a simples presen\u00e7a do novo empreendimento cria oportunidades, fundadas em suas necessidades, que a sociedade local aproveitar\u00e1 ou n\u00e3o, a depender de sua capacidade de responder a demandas, de organizar ofertas e de formular pleitos. Ocorre que essas oportunidades s\u00f3 se revelam para o local se as necessidades do empreendimento s\u00e3o esclarecidas. Da mesma forma, muitas das capacidades locais n\u00e3o se revelam a olho nu. De modo que divisar necessidades dos empreendimentos e capacidades locais que possam atend\u00ea-las, fazendo emergir, assim, oportunidades para ambos, exige esfor\u00e7os de decodifica\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o de parte a parte.<\/p>\n<p>Portanto, creio que, para serem sin\u00e9rgicas, as rela\u00e7\u00f5es entre grandes empreendimentos e sociedades locais dever\u00e3o ser baseadas em di\u00e1logo qualificado por conhecimento e a\u00e7\u00e3o. Fundamentado, pois, em (inter)a\u00e7\u00e3o comunicativa, no sentido que [<em>o fil\u00f3sofo e soci\u00f3logo alem\u00e3o J\u00fcrgen<\/em>] Habermas d\u00e1 a essa no\u00e7\u00e3o: uma rela\u00e7\u00e3o baseada no conhecimento m\u00fatuo das raz\u00f5es (necessidades) e possibilidades um do outro, como forma de descobrirem ou criarem interesses comuns \u2013 oportunidades. Para tanto, todos os envolvidos devem se preparar.<\/p>\n<p><strong>Em linhas gerais e idealmente falando, de que modo deve se dar essa prepara\u00e7\u00e3o de ambos os lados \u2013 tanto por parte dos empreendedores como da sociedade local?<\/strong><\/p>\n<p>Duas coisas s\u00e3o fundamentais para uma intera\u00e7\u00e3o social sin\u00e9rgica, uma a\u00e7\u00e3o comunicativa. Primeiro, a constru\u00e7\u00e3o da interlocu\u00e7\u00e3o, que requer disposi\u00e7\u00e3o e oportunidade. Segundo, a capacidade de comunica\u00e7\u00e3o dos envolvidos, que pressup\u00f5e a exist\u00eancia de um campo cognitivo, no qual conceitos e experi\u00eancias partilhados permitem uma compreens\u00e3o m\u00fatua de prop\u00f3sitos e possibilidades. Por mecanismos regulat\u00f3rios poder-se-\u00e1 for\u00e7ar a oportunidade \u2013 pouco se far\u00e1, por\u00e9m, por esses meios, para alterar disposi\u00e7\u00e3o e capacidade para a comunica\u00e7\u00e3o, esse momento essencial do reconhecimento que transforma a oportunidade em a\u00e7\u00e3o, em desenvolvimento local.<\/p>\n<p>Parece exerc\u00edcio f\u00fatil o di\u00e1logo com algu\u00e9m que n\u00e3o v\u00ea sentido nisso; e, mesmo for\u00e7ado pela circunst\u00e2ncia de uma norma, n\u00e3o faz ideia do que o interlocutor pensa, pode, precisa e quer, pois ao menos compreende, e n\u00e3o lhe interessa compreender, seus signos e significados, suas raz\u00f5es e sentidos. Acompanhei com interesse acad\u00eamico as firulas de algumas corpora\u00e7\u00f5es para fugir desses \u201cencontros for\u00e7ados\u201d com as sociedades locais. A Eletronorte, por exemplo, lidando com os munic\u00edpios do Baixo Tocantins para o encaminhamento de obriga\u00e7\u00f5es, jamais estabeleceu uma interlocu\u00e7\u00e3o verdadeira, mas sim o contato por \u201cporta-vozes\u201d treinados, n\u00e3o em avaliar possibilidades de desenvolvimento, mas sim em se livrar do outro, h\u00e1beis em transformar a oportunidade do di\u00e1logo, criada por normas, em uma \u201cencena\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica\u201d para validar \u201ca\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas\u201d unilaterais (para nos mantermos com os conceitos do mesmo grande J\u00fcrgen Habermas e sua Teoria da A\u00e7\u00e3o Comunicativa).<\/p>\n<p>Creio, portanto, que, ao lado da capacita\u00e7\u00e3o local (na forma\u00e7\u00e3o de autoconhecimento e conhecimento do outro, na estrutura\u00e7\u00e3o de governan\u00e7as eficazes e capacidade de planejamento e a\u00e7\u00e3o) para a rela\u00e7\u00e3o com os grandes empreendimentos, estes devem ser convencidos (ou conduzidos) a adquirirem capacidade de compreens\u00e3o dos territ\u00f3rios onde operam e dos mecanismos de seu desenvolvimento. Eles devem ser convencidos, igualmente, que a fun\u00e7\u00e3o primeira dessa nova capacidade tem de ser a de torn\u00e1-los atores construtivos dos arranjos produtivos e institucionais que condicionam as oportunidades do desenvolvimento local.<\/p>\n<p><strong>E o que falta para que essa prepara\u00e7\u00e3o ideal de ambos os lados aconte\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>Muito, se poder\u00e1 dizer. Na verdade, a atmosfera institucional (o <em>ethos<\/em>) do Pa\u00eds para tanto, se j\u00e1 era rarefeito, tende a ficar mais prec\u00e1rio com os desenvolvimentos pol\u00edticos recentes. Mas j\u00e1 n\u00e3o faltam exemplos.<\/p>\n<p>Destaco o caso da Natura. Essa empresa aproximou-se da realidade amaz\u00f4nica, principalmente das economias camponesas que lidam com a biodiversidade, a que nos referimos acima, h\u00e1 pouco mais de uma d\u00e9cada cometendo equ\u00edvocos que, presumo, lhes trouxeram preju\u00edzos de imagem e dificuldades log\u00edsticas. A partir de ent\u00e3o, ela refez sua estrat\u00e9gia, investindo em autocapacita\u00e7\u00e3o, onde se inclui a contrata\u00e7\u00e3o de quadros habilitados a proceder uma aproxima\u00e7\u00e3o respeitosa com as comunidades rurais e entorno industrial, atuais ou potenciais fornecedoras da planta industrial da empresa em Bel\u00e9m. Buscou aconselhamento externo de organiza\u00e7\u00f5es e pessoas que estudam e lidam com a Amaz\u00f4nia. Estabeleceu parcerias com institui\u00e7\u00f5es locais em diferentes campos, explorando o potencial de pesquisa cient\u00edfica de grupos locais e desenvolvendo solu\u00e7\u00f5es de C&amp;T, inclusive em sistemas rurais agroflorestais, de grande interesse para o desenvolvimento de economias vocacionadas para a sustentabilidade, a que me referi antes. Aceitou o desafio de colaborar com as sociedades locais em seu fortalecimento institucional.<\/p>\n<p>Enfim, a Natura vem se colocando exatamente como um ator do desenvolvimento local, aceitando a multidimensionalidade dessa condi\u00e7\u00e3o: a empresa, a\u00ed, n\u00e3o se restringe aos pap\u00e9is econ\u00f4micos que lhes s\u00e3o inerentes, acatando, simultaneamente, pap\u00e9is institucionais de diversas ordens. A empresa visa certamente retornos tang\u00edveis e intang\u00edveis: redes log\u00edsticas confi\u00e1veis em uma regi\u00e3o dif\u00edcil, ganhos de imagem e marca, lideran\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es empresariais com a sociobiodiversidade etc. Mas n\u00e3o restam d\u00favidas de que aqui temos um caso de busca de sinergia, pela a\u00e7\u00e3o comunicativa, entre uma grande empresa e sociedades locais. Com isso, temos um foco de desenvolvimento local, ao qual deve ser dada a devida aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Am\u00e1lia Safatle Existe um senso comum de que as popula\u00e7\u00f5es e os territ\u00f3rios impactados por grandes obras devem se preparar para a chegada do empreendimento, e dali procurar extrair o m\u00e1ximo de oportunidades ao mesmo tempo em que buscam prote\u00e7\u00e3o e adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 nova realidade. 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