{"id":1451,"date":"2017-10-31T09:17:12","date_gmt":"2017-10-31T12:17:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.p22on.com.br\/?p=1451"},"modified":"2022-02-22T10:52:07","modified_gmt":"2022-02-22T13:52:07","slug":"como-a-industra-global-da-moda-afeta-a-sociedade-e-o-ambiente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.p22on.com.br\/2017\/10\/31\/como-a-industra-global-da-moda-afeta-a-sociedade-e-o-ambiente\/","title":{"rendered":"Como a ind\u00fastria global da moda afeta a sociedade e o ambiente"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Magali Cabral<\/em><\/p>\n<p>A cal\u00e7a jeans que provavelmente voc\u00ea tem pendurada no guarda-roupa pode ter percorrido at\u00e9 75 mil quil\u00f4metros pelo mundo antes de ser sua. Isso sem considerar a viagem dos insumos que a comp\u00f5e: o algod\u00e3o que sai do campo e segue para fia\u00e7\u00e3o, lavagem e tingimento; os metais que das mineradoras v\u00e3o para a ind\u00fastria de bot\u00f5es, rebites e z\u00edper; as etiquetas que, se forem feitas de poli\u00e9ster, t\u00eam origem nos campos de petr\u00f3leo e passam por muitos processos at\u00e9 estampar o nome de uma grife e, se forem de couro, acrescentem-se mais alguns milhares de quil\u00f4metros, al\u00e9m de \u2018toneladas\u2019 de outros impactos socioambientais.<\/p>\n<p>Some-se a toda essa quilometragem muita quantidade. Se 20 anos atr\u00e1s as marcas produziam apenas quatro cole\u00e7\u00f5es por ano, uma para cada esta\u00e7\u00e3o, hoje a chamada <em>fast fashion<\/em>, que abastece as grandes lojas varejistas internacionais, produz 52, uma por semana, despejando no mercado global 80 bilh\u00f5es de pe\u00e7as de vestu\u00e1rio por ano \u2013 isso sem contar o que rola no mercado informal, e no m\u00e9dio e pequeno varejo, onde o controle \u00e9 ainda menor que sobre as grandes marcas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1506\" aria-describedby=\"caption-attachment-1506\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Yuriy-TrubitsynUnsplash.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1506 size-large\" src=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Yuriy-TrubitsynUnsplash-1024x649.jpg\" alt=\"Foto: Yuriy Trubitsyn\/ Unsplash\" width=\"800\" height=\"507\" srcset=\"https:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Yuriy-TrubitsynUnsplash-1024x649.jpg 1024w, https:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Yuriy-TrubitsynUnsplash-300x190.jpg 300w, https:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Yuriy-TrubitsynUnsplash-1440x913.jpg 1440w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1506\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Yuriy Trubitsyn\/ Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>No Brasil, apenas 20% do mercado nacional \u00e9 dominado pelo grande varejo. A moda nacional \u00e9 composta majoritariamente por PME e isso, de acordo com a <em>designer<\/em> de moda e fundadora e editora da plataforma Modefica, Marina Colerato, \u00e9 um dos maiores desafios para a sustentabilidade. \u201cPor um lado, \u00e9 \u00f3timo para a descentraliza\u00e7\u00e3o, por outro, \u00e9 um inferno para a formaliza\u00e7\u00e3o.\u201d Todos esses dados juntos d\u00e3o uma ideia do tamanho e da complexidade da cadeia produtiva da moda.<\/p>\n<p>Produzir grandes quantidades de roupas e cal\u00e7ados sem parar s\u00f3 faz sentido se na outra ponta as pessoas puderem comprar sem parar. Para isso, o pre\u00e7o tem de ser baixo, o custo de produ\u00e7\u00e3o o menor poss\u00edvel e o ritmo de trabalho incessante. E est\u00e1 criada a f\u00f3rmula do mal, respons\u00e1vel por situa\u00e7\u00f5es degradantes de condi\u00e7\u00f5es de trabalho, muitas vezes trabalho escravo, e de desrespeito ao meio ambiente.<\/p>\n<p>Quem se sentiria confort\u00e1vel dentro de uma camiseta de marca que pudesse ter sido costurada por uma jovem costureira morta no desabamento do Rana Plaza, em Bangladesh (em p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de conserva\u00e7\u00e3o, o pr\u00e9dio abrigava confec\u00e7\u00f5es de v\u00e1rias marcas globais famosas e ruiu em 24 de abril 2013, matando 1.134 trabalhadores, a maioria mulheres jovens e adolescentes, e deixando mais 2,5 mil feridos)?<\/p>\n<p>E se voc\u00ea soubesse que o algod\u00e3o utilizado naquela cal\u00e7a jeans pendurada no guarda-roupa veio de uma lavoura do Nordeste que intoxica trabalhadores rurais e polui rios e len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos com agrot\u00f3xicos contrabandeados e usados al\u00e9m do limite permitido?<\/p>\n<p>O que dizer das pe\u00e7as vendidas por confec\u00e7\u00f5es que exploram m\u00e3o de obra de imigrantes ilegais, vivendo em situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o em por\u00f5es nos bairros do Bom Retiro, Br\u00e1s, Pari ou Casa Verde, em S\u00e3o Paulo, ou no interior do estado? Presume-se que qualquer pessoa minimamente emp\u00e1tica repudiaria produtos oriundos desse processo sujo da moda. Mas como saber o quanto de trag\u00e9dia carrega uma pe\u00e7a de roupa que veste um manequim na vitrine glamorosa da loja do shopping center?<\/p>\n<p>Eis a\u00ed um verdadeiro e inadi\u00e1vel desafio de sustentabilidade para a ind\u00fastria da moda: dar transpar\u00eancia aos processos de produ\u00e7\u00e3o, tanto no que diz respeito aos aspectos sociais como aos ambientais. O desabamento do pr\u00e9dio de Bangladesh serviu como marco de um movimento de rea\u00e7\u00e3o global contra o estado de descalabros no setor. Come\u00e7ou com o protesto dos jornalistas que faziam a cobertura da trag\u00e9dia, que se despiram das pe\u00e7as de roupa cujas marcas estavam relacionadas \u00e0s confec\u00e7\u00f5es do Rana Plaza.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1507\" aria-describedby=\"caption-attachment-1507\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Felix-ClayDuckrabbit..jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1507 size-large\" src=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Felix-ClayDuckrabbit.-1024x683.jpg\" alt=\"Mulher em Khulna, Bangladesh. Foto de Felix Clay\/Duckrabbit.\" width=\"800\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Felix-ClayDuckrabbit.-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Felix-ClayDuckrabbit.-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Felix-ClayDuckrabbit.-1440x960.jpg 1440w, https:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Felix-ClayDuckrabbit..jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1507\" class=\"wp-caption-text\">Mulher em Khulna, Bangladesh. Foto de Felix Clay\/Duckrabbit.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nos dias seguintes, um grupo de l\u00edderes da ind\u00fastria da moda sustent\u00e1vel fundou a <a href=\"http:\/\/fashionrevolution.org\/country\/brazil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fashion Revolution<\/a>. O movimento, hoje presente em 92 pa\u00edses, entre eles o Brasil, criou a Fashion Revolution Week. Durante a semana, s\u00e3o promovidas a\u00e7\u00f5es de conscientiza\u00e7\u00e3o dos consumidores para o fato de que a compra \u00e9 o \u00faltimo passo de uma longa cadeia de valor que envolve milhares de pessoas que podem estar trabalhando em condi\u00e7\u00f5es muito prec\u00e1rias de salubridade e de renda. O consumidor, quando tem a informa\u00e7\u00e3o, pode fazer press\u00e3o, boicote e pedir transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>Quem fez minhas roupas? \u00c9 a pergunta que o Fashion Revolution incentiva os consumidores a fazer. \u00c9 o chamado consumo consciente, como explica a professora de design e sustentabilidade no Instituto Europeu de Design (IED) em S\u00e3o Paulo, Eloisa Artuso, respons\u00e1vel pela \u00e1rea educacional do movimento. Para ela, nas \u00faltimas d\u00e9cadas nos deixamos levar pelo <em>fast fashion<\/em> e passamos a consumir muito mais roupas do que realmente precisamos. Por isso, sugere: \u201cAl\u00e9m de pensar duas vezes, vamos fazer com que as pe\u00e7as durem mais, vamos consert\u00e1-las. Vamos comprar de segunda m\u00e3o. O que pode n\u00e3o servir mais para uma pessoa vira uma pe\u00e7a nova para outra. Vamos comprar do pequeno, promover o com\u00e9rcio local\u201d.<\/p>\n<p><strong>Couro sujo<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse Bangladesh ter sido palco da trag\u00e9dia do Rana Plaza, o pa\u00eds abriga tamb\u00e9m um dos dez locais mais polu\u00eddos do planeta, o distrito de Hazaribagh, onde operaram at\u00e9 abril deste ano 90% dos seus 270 curtumes. Esse elo da cadeia da moda internacional, que compra couro para a fabrica\u00e7\u00e3o de cal\u00e7ados, bolsas, casacos e acess\u00f3rios, explorava mais de 10 mil trabalhadores, entre os quais muitas crian\u00e7as e adolescentes. Todos os dias, os curtumes despejavam 22 mil litros c\u00fabicos de res\u00edduos t\u00f3xicos cancer\u00edgenos, sem nenhum tratamento, em c\u00f3rregos, lagoas e canais da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo levantamento feito pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), 90% dos trabalhadores desses curtumes n\u00e3o vivem mais do que 50 anos. \u201cEssa taxa de longevidade \u00e9 pior do que a dos escravos do Sul dos Estados Unidos no s\u00e9culo XIX\u201d, disse o jornalista , fundador da <a href=\"https:\/\/www.transparentem.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Transparentem<\/a>, organiza\u00e7\u00e3o americana sem fins lucrativos que investiga casos de abusos humanos e ambientais em cadeias de suprimento. Presente \u00e0 Confer\u00eancia Ethos 2017, em S\u00e3o Paulo, ele comemorou o resultado do trabalho da Transparentem em Bangladesh:<\/p>\n<p>\u201cDetectamos fornecedores de couro de 11 marcas conhecidas internacionalmente comprando insumos nos curtumes de Hazaribagh. Come\u00e7amos a conversar com as empresas em outubro de 2016. Em 25 de mar\u00e7o, a [<em>ag\u00eancia de not\u00edcias<\/em>] Associated Press fez uma reportagem sobre esse trabalho da Transparentem e, no dia 28 do mesmo m\u00eas, nos sentamos com os investidores de mais de US$ 2,3 trilh\u00f5es da ind\u00fastria e com\u00e9rcio cal\u00e7adista para expor a situa\u00e7\u00e3o. Em 8 de abril, o governo de Bangladesh cancelou todos os servi\u00e7os de concess\u00e3o de \u00e1gua, luz e energia desses curtumes ilegais, que foram obrigados a fechar as portas. \u00c9 muito bom vencer de vez em quando\u201d, disse Skinner. \u201cMuitos varejistas sabiam de onde vinha o sapato, mas n\u00e3o o couro usado para fabric\u00e1-lo. Agora est\u00e3o mais conscientes do problema.\u201d<\/p>\n<p><strong>Um caso de cadeia<\/strong><\/p>\n<p>Esse mesmo tipo de rastreamento nas cadeias de suprimento nacionais \u00e9 feito pela ONG Rep\u00f3rter Brasil, cuja miss\u00e3o desde 2003 \u00e9 identificar e tornar p\u00fablicas situa\u00e7\u00f5es que ferem direitos trabalhistas e causam danos socioambientais no Brasil.<\/p>\n<p>O jornalista e cientista social Leonardo Sakamoto, presidente da ONG Rep\u00f3rter Brasil, conselheiro no Fundo da ONU contra a escravid\u00e3o e neto de costureira, n\u00e3o acha correto responsabilizar a extens\u00e3o ou a complexidade da cadeia de valor da moda pelo desconhecimento do que acontece no setor. \u201cSe organiza\u00e7\u00f5es de tamanho m\u00e9dio como a Rep\u00f3rter Brasil e a Transparentem identificam os problemas, como grandes empresas multinacionais, cujos propriet\u00e1rios est\u00e3o entre as pessoas mais ricas do mundo, n\u00e3o conseguem rastre\u00e1-los?\u201d, questiona.<\/p>\n<p>Segundo Sakamoto, essa situa\u00e7\u00e3o de precariedade no trabalho e de desrespeito ao meio ambiente sempre esteve presente na ind\u00fastria t\u00eaxtil. Ela \u00e9 hist\u00f3rica e remonta ao seu nascedouro, \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. \u201cNa Europa, quando os trabalhadores consolidaram seus direitos, a ind\u00fastria t\u00eaxtil migrou para pa\u00edses com farta m\u00e3o de obra e baixa prote\u00e7\u00e3o trabalhista ambiental\u201d, conta. \u201cPrimeiro foi o Brasil, depois a China e agora \u00e9 Camboja, Vietn\u00e3, Bangladesh, entre outros.\u201d<\/p>\n<p>A partir do momento em que os pa\u00edses come\u00e7am a efetivar direitos, os trabalhadores empoderam-se e a sociedade passa a exigir padr\u00f5es m\u00ednimos, a empresa de capital internacional volta a migrar. \u201cSe hoje a bola da vez \u00e9 a \u00c1sia, daqui a pouco ser\u00e1 a Som\u00e1lia, e outros pa\u00edses da \u00c1frica.\u201d<\/p>\n<p>Atualmente, um grupo de trabalho ligado ao Conselho de Direitos Humanos nas Na\u00e7\u00f5es Unidas, est\u00e1 criando, segundo o jornalista, princ\u00edpios vinculantes para substituir os princ\u00edpios volunt\u00e1rios no emprego dos direitos humanos. A ideia, diz ele, \u00e9 responsabilizar os pa\u00edses pelo mau comportamento de suas empresas. Assim, o pr\u00f3prio governo ter\u00e1 de obrigar os seus empres\u00e1rios a adotar determinados comportamentos.<\/p>\n<p>A ONG Rep\u00f3rter Brasil lan\u00e7ou no ano passado o aplicativo Moda Livre, onde est\u00e3o listadas mais de 100 marcas de vestu\u00e1rio com avalia\u00e7\u00e3o do que fazem para combater o trabalho escravo na cadeia de valor. Gratuito, o aplicativo j\u00e1 teve mais de 100 mil <em>downloads<\/em>. A ideia \u00e9 ajudar o consumidor a fazer press\u00e3o na hora das compras.<\/p>\n<p>Para Sakamoto, comprar \u00e9 um ato pol\u00edtico. \u201cQuando uma pessoa compra, deposita o seu voto na forma como aquele produto foi feito. Se estou comprando de voc\u00ea, eu quero que voc\u00ea continue produzindo.\u201d Por isso, \u00e9 preciso garantir informa\u00e7\u00e3o ao consumidor. \u201cAs pessoas precisam saber que uma costureira terceirizada ou \u2018quarteirizada\u2019 recebe entre R$ 2 e R$ 6 para costurar um vestido inteiro que ser\u00e1 vendido em lojas famosas.\u201d<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de Sakamoto, mais efetivo do que o consumo consciente s\u00e3o os movimentos de boicote de curto prazo, que provocam um efeito fogo de palha: \u201cDentro das empresas h\u00e1 departamentos de responsabilidade social e de <em>compliance<\/em> que vivem \u2018apanhando\u2019 do departamento de produ\u00e7\u00e3o porque tentam mudar as coisas. Quando surge uma den\u00fancia seguida de um boicote de um ou dois dias, \u00e9 a oportunidade desse pessoal das empresas de empoderar-se e de agir.<\/p>\n<p><strong>Escravos de J\u00f3<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil ocupa o quarto lugar entre os produtores mundiais de roupas e abriga a cadeia produtiva completa das atividades relacionadas \u00e0 ind\u00fastria da moda. Segundo a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Ind\u00fastria T\u00eaxtil e de Confec\u00e7\u00e3o (Abit), o faturamento do setor foi de R$ 37 bilh\u00f5es em 2016. A parte mais agressiva desse contexto \u00e9 a exist\u00eancia de trabalho escravo ao longo dos processos. Mas a diretora-executiva do Instituto Pacto Nacional pela Erradica\u00e7\u00e3o do Trabalho Escravo (InPacto), M\u00e9rcia Silva, trouxe pelo menos uma boa not\u00edcia \u00e0 Confer\u00eancia Ethos: \u201cNo caso da cadeia da produ\u00e7\u00e3o do algod\u00e3o, os resultados positivos j\u00e1 come\u00e7aram a prevalecer\u201d.<\/p>\n<p>Ela os atribui \u00e0s v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es implementadas nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, sobretudo \u00e0 lista suja do Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego (MTE) e ao Pacto Nacional pela Erradica\u00e7\u00e3o do Trabalho Escravo elaborado em 2005 pelo Ethos, o Instituto Observat\u00f3rio Social (IOS) e a ONG Rep\u00f3rter Brasil. Hoje, segundo M\u00e9rcia Silva, dificilmente as inspe\u00e7\u00f5es nos campos de algod\u00e3o v\u00e3o se deparar com trabalhadores em situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, o mesmo n\u00e3o \u00e9 verdade na pecu\u00e1ria, setor com muitas empresas na lista suja do MTE e que, em grande parte, ainda trabalha na fase de capacita\u00e7\u00e3o de pessoal para rastrear a cadeia. Essa lacuna na pecu\u00e1ria impede que empresas pequenas e m\u00e9dias atinjam o grau de transpar\u00eancia da cadeia produtiva que almejam. \u00c9 o caso, por exemplo, da franco-brasileira Vert Shoes, que fabrica t\u00eanis com borracha nativa produzida por seringueiros acreanos e algod\u00e3o org\u00e2nico adquirido de cooperativas de pequenos produtores cearenses, tudo dentro das regras do <em>fair trade<\/em>, ou com\u00e9rcio justo (<em>mais sobre a Vert <\/em><a href=\"http:\/\/pagina22.com.br\/2016\/12\/07\/v-de-verde\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>nesta reportagem<\/em><\/a><em> de <\/em><strong>P\u00e1gina22<\/strong>).<\/p>\n<p>Um dos elos que impedem a Vert de atingir suas metas em sustentabilidade \u00e9 a cadeia do couro. A empresa consegue rastrear o insumo somente a partir de sua entrada nos curtumes. Antes disso, os empres\u00e1rios garantem aos seus consumidores apenas que o couro que utilizam n\u00e3o prov\u00e9m de \u00e1reas desmatadas da Amaz\u00f4nia. Ficam sem transpar\u00eancia quesitos \u00e9ticos como bem-estar animal e boas rela\u00e7\u00f5es trabalhistas nas fazendas de gado.<\/p>\n<p>No ano passado, v\u00e1rios setores representantes da cadeia da moda uniram-se para criar o Laborat\u00f3rio da Moda Sustent\u00e1vel, cuja proposta \u00e9 trabalhar com a perspectiva de mudan\u00e7as sist\u00eamicas e de longo prazo em toda a cadeia. A parceria deu-se entre a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira do Varejo T\u00eaxtil (ABVTEX) e a Abit, com apoio do Instituto C&amp;A e administra\u00e7\u00e3o do Instituto Reos.<\/p>\n<p>As grandes varejistas tamb\u00e9m come\u00e7am a apresentar as primeiras iniciativas de sustentabilidade, tanto para reduzir impactos ambientais como sociais. Recentemente a C&amp;A lan\u00e7ou uma linha camiseta com Certifica\u00e7\u00e3o Cradle to Cradle (c2c), n\u00edvel <em>gold<\/em>.<\/p>\n<p>O certificado internacional c2c \u00e9 feito com base nos crit\u00e9rios de desenho de materiais seguros \u00e0 sa\u00fade, desenho de produtos para reciclabilidade, uso de energias renov\u00e1veis, gest\u00e3o da qualidade da \u00e1gua e responsabilidade social.<\/p>\n<p>Essas camisetas foram feitas com algod\u00e3o \u201csustent\u00e1vel\u201d (no site, a empresa informa que as pessoas envolvidas nos processos de produ\u00e7\u00e3o do algod\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o expostas a subst\u00e2ncias qu\u00edmicas perigosas) e preparadas para que possam ser recicladas no futuro, ou levadas para a compostagem. A C&amp;A \u00e9 tamb\u00e9m signat\u00e1ria do Pacto Nacional pela Erradica\u00e7\u00e3o do Trabalho Escravo.<\/p>\n<p>A tamb\u00e9m internacional H&amp;M j\u00e1 h\u00e1 alguns anos vem lan\u00e7ando uma cole\u00e7\u00e3o feita com material t\u00eaxtil de baixo impacto. Segundo Eloisa Artuso, a loja de departamentos iniciou uma campanha de fomento da economia circular para a ind\u00fastria da moda. Foi montado dentro das lojas um sistema de coleta de pe\u00e7as descartadas pelos clientes. \u201cA empresa recicla os tecidos poss\u00edveis e os reinsere na pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o\u201d, explica ela.<\/p>\n<p>A Zara, cuja cadeia produtiva esteve envolvida em trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o em anos anteriores, seguiu a mesma estrat\u00e9gia, lan\u00e7ando no ver\u00e3o passado uma linha feita com material de baixo impacto.<\/p>\n<p>\u201cOs grandes varejistas j\u00e1 t\u00eam se movimentado nesse sentido, mas, pelo pr\u00f3prio tamanho e pelo tanto de impacto que causam, est\u00e3o precisando se movimentar um pouco mais r\u00e1pido\u201d, arremata Artuso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Magali Cabral A cal\u00e7a jeans que provavelmente voc\u00ea tem pendurada no guarda-roupa pode ter percorrido at\u00e9 75 mil quil\u00f4metros pelo mundo antes de ser sua. 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