{"id":1937,"date":"2018-03-10T16:20:15","date_gmt":"2018-03-10T19:20:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.p22on.com.br\/?p=1937"},"modified":"2022-02-22T09:46:14","modified_gmt":"2022-02-22T12:46:14","slug":"conectando-os-pontos-agua-como-fio-condutor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.p22on.com.br\/2018\/03\/10\/conectando-os-pontos-agua-como-fio-condutor\/","title":{"rendered":"Conectando os pontos: a \u00e1gua como fio condutor"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Am\u00e1lia Safatle<\/em><\/p>\n<p><em>Ao fazer a liga\u00e7\u00e3o entre produ\u00e7\u00e3o de alimentos, floresta, clima e energia, a \u00e1gua torna-se o fio capaz de engajar toda a sociedade em torno da\u00a0Agenda 2030. Al\u00e9m disso, uma nova abordagem nas contas nacionais relaciona o ativo ambiental com gera\u00e7\u00e3o de renda econ\u00f4mica<\/em><\/p>\n<p>Fechar os est\u00f4matos de suas folhas \u2013 c\u00e9lulas por onde respiram \u2013 \u00e9 uma das rea\u00e7\u00f5es desesperadas que as \u00e1rvores tomam na tentativa de resistir a estiagens longas e severas, como as que acometeram a Amaz\u00f4nia em 1997, 2005, 2010 e 2015. Outra atitude extrema \u00e9 perder mais folhas.<\/p>\n<p>Mas as folhas, acumuladas no solo seco das florestas, com frequ\u00eancia transformam-se em combust\u00edvel para inc\u00eandios \u2013 diversas vezes ateados pela m\u00e3o humana \u2013 que v\u00e3o alastrar mais secura e altas temperaturas por toda a regi\u00e3o. Com os term\u00f4metros nas alturas e est\u00f4matos fechados para reter umidade, as \u00e1rvores s\u00e3o levadas \u00e0 inani\u00e7\u00e3o, pois deixam de capturar o g\u00e1s carb\u00f4nico do ar, sua fonte de comida. Tornam-se, portanto, mais fr\u00e1geis na luta pela sobreviv\u00eancia em um ambiente crescentemente in\u00f3spito, gerando um ciclo vicioso.<\/p>\n<p>Com isso, est\u00e1 dada a \u201cequa\u00e7\u00e3o da morte\u201d, express\u00e3o chocante de uma recente <a href=\"http:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/nph.15027\/full\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">revis\u00e3o cient\u00edfica<\/a> liderada por Nate McDowell, do Laborat\u00f3rio Nacional do Noroeste Pac\u00edfico, nos Estados Unidos, na revista <em>New Phytologist<\/em>, que pesquisou a taxa de mortalidade das \u00e1rvores tropicais relacionada \u00e0 mudan\u00e7a do clima, e contou com a participa\u00e7\u00e3o do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia (Ipam) <em>(<\/em><a href=\"https:\/\/youtu.be\/H198pN8-6jE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>mais neste v\u00eddeo<\/em><\/a>).<\/p>\n<p>Fazemos aqui uma liga\u00e7\u00e3o disso com outro estudo, desta vez <a href=\"http:\/\/advances.sciencemag.org\/content\/4\/2\/eaat2340\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">publicado na revista <em>Science Advances<\/em><\/a>, segundo o qual as referidas megassecas na Amaz\u00f4nia seriam j\u00e1 os primeiros ind\u00edcios de que a floresta est\u00e1 pr\u00f3xima de um ponto de n\u00e3o retorno \u2013 a partir do qual \u201csuas paisagens podem se tornar semelhantes \u00e0s de cerrado, mas degradadas, com vegeta\u00e7\u00e3o rala e esparsa e baixa biodiversidade\u201d, conforme <a href=\"http:\/\/agencia.fapesp.br\/desmatamento_na_amazonia_esta_prestes_a_atingir_limite_irreversivel\/27180\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">relatado aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Falando em Cerrado, imposs\u00edvel deixar de citar o bioma que \u00e9 apelidado de caixa-d\u2019\u00e1gua do Brasil, por concentrar umidade nas profundas ra\u00edzes de suas \u00e1rvores, o que tamb\u00e9m lhe rende a alcunha de \u201cfloresta de cabe\u00e7a para baixo\u201d. Do Cerrado partem os rios que abastecem as principais bacias hidrogr\u00e1ficas \u2013 Parna\u00edba, Paran\u00e1, Paraguai, Tocantins-Araguaia, S\u00e3o Francisco e Amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>F\u00e1cil compreender que, sem o Cerrado conservado, tamb\u00e9m n\u00e3o haver\u00e1 \u00e1gua. O dif\u00edcil \u00e9 entender que, apesar disso, o bioma continua em ritmo acelerado de destrui\u00e7\u00e3o, para dar lugar a ganhos imediatistas do agroneg\u00f3cio. As taxas de desmatamento no Cerrado superam as da Amaz\u00f4nia h\u00e1 mais de dez anos. Entre 2007 e 2014, 26% da expans\u00e3o agr\u00edcola ocorreu diretamente sobre a vegeta\u00e7\u00e3o de cerrado, puxando tamb\u00e9m a expans\u00e3o pecu\u00e1ria (<a href=\"http:\/\/pagina22.com.br\/2017\/09\/11\/manifesto-pede-fim-de-compra-de-soja-e-carne-de-areas-desmatadas-no-cerrado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>mais aqui<\/em><\/a>).<\/p>\n<p>S\u00f3 que aquela parcela do agroneg\u00f3cio que avan\u00e7a sobre os biomas brasileiros, embora tamb\u00e9m contribua para a gera\u00e7\u00e3o de renda a curto prazo \u2013 em particular ap\u00f3s o Pa\u00eds sofrer a maior recess\u00e3o de sua hist\u00f3ria \u2013, \u00e9, como todo o setor, afetada em um prazo mais longo pelas condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas extremas.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria cresce, mas sob condi\u00e7\u00f5es insustent\u00e1veis. Fa\u00e7amos, ent\u00e3o, mais uma liga\u00e7\u00e3o. Um dos cap\u00edtulos do livro <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/profile\/Wanderson_Silva7\/publication\/305084250_Modelagem_Climatica_e_Vulnerabilidades_Setoriais_a_Mudanca_do_Clima_no_Brasil\/links\/57818a7a08ae5f367d393b12\/Modelagem-Climatica-e-Vulnerabilidades-Setoriais-a-Mudanca-do-Clima-no-Brasil.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Modelagem Clim\u00e1tica e Vulnerabilidades Setoriais \u00e0 Mudan\u00e7a do Clima<\/em><\/a>, lan\u00e7ado pelo governo em 2016, mostra o efeito devastador da mudan\u00e7a clim\u00e1tica sobre a agricultura brasileira. Segundo os pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria, a Embrapa, o aumento da frequ\u00eancia de dias com temperaturas superiores a 34 graus nos pr\u00f3ximos anos pode levar, por exemplo, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de 90% na produ\u00e7\u00e3o de milho safrinha e de 80% na produ\u00e7\u00e3o de soja, o carro-chefe das exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como na natureza todos os sistemas s\u00e3o inter-relacionados, temos, portanto, uma esp\u00e9cie de domin\u00f3 em que a queda de uma pe\u00e7a desencadeia a derrubada das demais. Considerando que grande parte das chuvas que caem nas produtivas e populosas regi\u00f5es Sudeste e Sul s\u00e3o influenciadas pela <a href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/blog.socioambiental.org\/files\/futuro-climatico-da-amazonia.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Floresta Amaz\u00f4nica<\/a>, que novas fontes de energia hidrel\u00e9trica s\u00e3o buscadas naquele bioma e que este, por sua vez, \u00e9 afetado pela destrui\u00e7\u00e3o do Cerrado, no qual a produ\u00e7\u00e3o de alimentos \u00e9 comprometida pelas pr\u00e1ticas insustent\u00e1veis e pelos efeitos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u2013 apenas para citar quatro situa\u00e7\u00f5es \u2013, \u00e9 poss\u00edvel ter uma ideia do estrago que o desmatamento pode causar tanto na economia como nas seguran\u00e7as energ\u00e9tica, h\u00eddrica e alimentar de um pa\u00eds inteiro.<\/p>\n<p>Fazer as sinapses entre \u00e1gua, energia e alimento \u2013 tendo a mudan\u00e7a do clima como pano de fundo \u2013 foi justamente a abordagem proposta em 2011 na confer\u00eancia \u201c<a href=\"https:\/\/www.water-energy-food.org\/calendar\/detail\/2012-02-27-conference-the-water-energy-and-food-security-nexus-bonn2011-nexus-conference\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Water, Energy and Food Security Nexus \u2013 Solutions for the Green Economy<\/a>\u201d. Lan\u00e7ada como contribui\u00e7\u00e3o para a Rio+20, que seria realizada no ano posterior, a iniciativa foi calcada em problemas que n\u00e3o s\u00f3 persistem at\u00e9 hoje como se agravam: dado que dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o mundial j\u00e1 vive em \u00e1reas com escassez de \u00e1gua ao menos um m\u00eas por ano, \u00e9 preciso lembrar que a demanda global por \u00e1gua deve ultrapassar a oferta em 40% at\u00e9 2030 e em 55% at\u00e9 2050, conforme citado na confer\u00eancia.<\/p>\n<p>Isso por conta de uma conjun\u00e7\u00e3o de fatores: mudan\u00e7a clim\u00e1tica, aumento populacional, crescimento econ\u00f4mico e r\u00e1pida urbaniza\u00e7\u00e3o. (A <a href=\"http:\/\/www.worldometers.info\/world-population\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">atual popula\u00e7\u00e3o de 7,6 bilh\u00f5es<\/a> deve atingir 9,7 bilh\u00f5es em 2050, e a concentra\u00e7\u00e3o nas cidades deve passar de 54% para 65% no mesmo per\u00edodo, segundo proje\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas.)<\/p>\n<p><strong>A metade cheia do copo<\/strong><\/p>\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que a conex\u00e3o entre os pontos tem sido cada vez mais recorrente. Por exemplo, desde 2015 o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial percebe a crise h\u00eddrica como um risco social, at\u00e9 ent\u00e3o vista como um risco intrinsecamente ambiental. Segundo o <em>Relat\u00f3rio de Riscos Globais 2017<\/em>, um decr\u00e9scimo significativo na disponibilidade h\u00eddrica em qualidade e quantidade resulta em efeitos lesivos na sa\u00fade humana e na atividade econ\u00f4mica. O documento traz o resultado da <em>Pesquisa\u00a0sobre Percep\u00e7\u00e3o de Riscos Globais<\/em> na qual aproximadamente mil especialistas e tomadores de decis\u00e3o ao redor do mundo analisam a probabilidade e impacto de 30 riscos globais nos pr\u00f3ximos 10 anos:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/principaisriscosglobais.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1940 size-full\" src=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/principaisriscosglobais.png\" alt=\"principaisriscosglobais\" width=\"579\" height=\"434\" srcset=\"https:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/principaisriscosglobais.png 579w, https:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/principaisriscosglobais-300x225.png 300w\" sizes=\"(max-width: 579px) 100vw, 579px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O documento ainda pontua que \u201cuma gest\u00e3o ineficaz dos bens comuns globais (oceanos, atmosfera e o sistema clim\u00e1tico) pode ter consequ\u00eancias locais e globais. Por exemplo, uma mudan\u00e7a nos padr\u00f5es clim\u00e1ticos ou uma crise h\u00eddrica pode desencadear ou exacerbar riscos geopol\u00edticos e sociais como conflitos dom\u00e9sticos ou regionais e migra\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria (&#8230;)\u201d. Na imagem abaixo, a crise h\u00eddrica \u00e9 relacionada \u00e0 de alimentos, a conflitos internacionais, a desastres ambientais causados pelo homem e ao insucesso na mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a do clima.<a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/mapadainterconexao.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1942\" src=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/mapadainterconexao.png\" alt=\"mapadainterconexao\" width=\"660\" height=\"577\" srcset=\"https:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/mapadainterconexao.png 660w, https:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/mapadainterconexao-300x262.png 300w\" sizes=\"(max-width: 660px) 100vw, 660px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Pode-se fazer outra conex\u00e3o entre os <a href=\"https:\/\/nacoesunidas.org\/conheca-os-novos-17-objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-da-onu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel<\/a> (ODS), ligando o de n\u00famero 6, \u00c1gua Limpa e Saneamento, a todos os demais. Isso porque a seguran\u00e7a h\u00eddrica depende da gest\u00e3o de todos os sistemas naturais (o que se liga aos objetivos 9, 11, 13, 14 e 15), \u00e9 essencial para alimenta\u00e7\u00e3o, abrigo, sa\u00fade, energia e renda (1, 2, 3, 7, 8 e 12) e requer a inclus\u00e3o social e o empoderamento da popula\u00e7\u00e3o (4, 5, 10, 16 e 17). Saiba mais na p\u00e1gina 20 do estudo <a href=\"https:\/\/thought-leadership-production.s3.amazonaws.com\/2017\/08\/15\/13\/08\/06\/94ed694b-95aa-457d-a9d0-4d8695cfaddc\/Beyond_The_Source_Full_Report_FinalV4.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Beyond the Source<\/em><\/a>, produzido pela organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental The Nature Conservancy (TNC).<\/p>\n<p>Com isso, a \u00e1gua torna-se o fio capaz de engajar toda a sociedade em torno da <strong><a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/2018\/03\/10\/dicionario-dicas-de-videos-filmes-e-leituras\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Agenda 2030<\/a><\/strong>. \u201cSem \u00e1gua, n\u00e3o tem ODS\u201d, resume Samuel Barr\u00eato, gerente nacional de \u00e1gua da TNC.<\/p>\n<p><strong>Quanta \u00e1gua se usa para gerar renda?<\/strong><\/p>\n<p>Ao reconhecer as interconex\u00f5es entre \u00e1gua e a agenda de desenvolvimento, fica claro o car\u00e1ter econ\u00f4mico conferido aos recursos h\u00eddricos: geralmente, \u00e1gua \u00e9 um bem econ\u00f4mico comum, isto \u00e9, com alto grau de rivalidade \u2013 na medida em que determinada quantidade \u00e9 consumida por um indiv\u00edduo ou uma organiza\u00e7\u00e3o, deixa de estar dispon\u00edvel para os demais \u2013 e baixo grau de excludabilidade \u2013 dif\u00edcil de controlar ou limitar o seu acesso, dado que se espalha em aqu\u00edferos, lagos, rios etc., fazendo com que as pessoas n\u00e3o possam ser prevenidas de us\u00e1-la.<\/p>\n<p>O gr\u00e1fico abaixo mostra bem a disparidade no uso da \u00e1gua, e ainda traz uma informa\u00e7\u00e3o adicional, ao cruzar consumo de \u00e1gua e contribui\u00e7\u00e3o da atividade para o PIB, tendo como base, respectivamente, dados da Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas (ANA) e das contas nacionais calculadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Enquanto o setor de servi\u00e7os contribui para grande parte do PIB demandando pouca \u00e1gua, a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 exatamente inversa no setor agropecu\u00e1rio:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.p22on.com.br\/2018\/03\/10\/conectando-os-pontos-agua-como-fio-condutor\/anaibge-copy\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-3842 size-full\" src=\"https:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/anaibge-copy.jpg\" alt=\"\" width=\"719\" height=\"466\" srcset=\"https:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/anaibge-copy.jpg 719w, https:\/\/www.p22on.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/anaibge-copy-300x194.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 719px) 100vw, 719px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Incluir o componente ambiental nas contas nacionais \u00e9 uma iniciativa in\u00e9dita no Brasil e pouco difundida no mundo. O Pa\u00eds est\u00e1 usando uma metodologia estabelecida pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas, inicialmente aplicada nas contas relativas \u00e0 \u00e1gua, mas que dever\u00e1 ser estendida a outros ativos ambientais. \u201d\u00c9 um pioneirismo do Brasil e um protagonismo em n\u00edvel mundial. Poucos pa\u00edses t\u00eam essa contabilidade nesse n\u00edvel de detalhe\u201d, afirma S\u00e9rgio Ayrimoraes, superintendente de Planejamento de Recursos H\u00eddricos da ANA.<\/p>\n<p>Os primeiros resultados dessa contabilidade foram preparados para divulga\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00e9speras do 8\u00ba F\u00f3rum Mundial da \u00c1gua, mostrando o quanto \u00e9 produzido em cada setor, em termos de PIB, comparativamente \u00e0 quantidade de \u00e1gua que utiliza. \u201cEssa contabilidade poder\u00e1 servir de refer\u00eancia para balizar o pre\u00e7o da \u00e1gua, auxiliar na gest\u00e3o dos recursos h\u00eddricos e contribuir nas decis\u00f5es sobre prioriza\u00e7\u00e3o de uso\u201d, acredita Ayrimoraes.<\/p>\n<p>Segundo ele, as atividades que\u00a0geram mais renda com menos \u00e1gua poder\u00e3o ser privilegiadas em detrimento das que s\u00e3o muito perdul\u00e1rias e produzem menos renda \u2013 o que induziria a busca de maior efici\u00eancia e uso racional.<\/p>\n<p>Os indicadores servem tamb\u00e9m para sinalizar um valor mais realista da \u00e1gua. \u201cJ\u00e1 temos um pre\u00e7o de cobran\u00e7a\u00a0pelo uso da \u00e1gua em bacias hidrogr\u00e1ficas, mas h\u00e1 uma discuss\u00e3o de que esse pre\u00e7o \u00e9, em muitos casos, simb\u00f3lico, pouco representativo da realidade e por isso acaba n\u00e3o surtindo efeitos na gest\u00e3o\u201d, diz (<em>leia <a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/2018\/03\/10\/sinalizacoes-de-preco-para-gerir-um-bem-escasso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mais aqui<\/a><\/em>).<\/p>\n<p>A mensagem central, segundo Ayrimoraes, serve de alerta para que o Brasil n\u00e3o aumente a sua renda (PIB) ao custo de dilapidar seus ativos ambientais. No fundo, \u00e9 uma discuss\u00e3o sobre a qualidade do crescimento e sobre que tipo de desenvolvimento queremos.<\/p>\n<p>Para que o desenvolvimento seja sustent\u00e1vel, teremos de olhar para a forma como a riqueza \u00e9 produzida. No caso da agropecu\u00e1ria, em que a rela\u00e7\u00e3o entre consumo de \u00e1gua e gera\u00e7\u00e3o de PIB \u00e9 a mais gritante, que caminhos precisam ser tomados? <a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/2018\/03\/10\/dicionario-dicas-de-videos-filmes-e-leituras\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Os sistemas agroflorestais<\/a> por exemplo, embora praticados ainda em pequena escala proporcionalmente ao gigantismo do agroneg\u00f3cio convencional, seriam um campo para aprendizados.<\/p>\n<p>Esses sistemas, que imitam as florestas naturais, tendem a ser resilientes e produtivos, oferecendo alimento, lenha e rem\u00e9dios ao mesmo tempo em que reduzem o escoamento de sedimentos e nutrientes em cursos d\u2019\u00e1gua adjacentes, conservam o solo, capturam e armazenam carbono, e protegem altos n\u00edveis de biodiversidade \u2013 segundo o estudo <em>Beyond the Source.<\/em><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m espelhada na natureza, a infraestrutura verde \u2013 da qual o exemplo de Nova York \u00e9 historicamente o mais emblem\u00e1tico \u2013 configura uma das sa\u00eddas para garantir o abastecimento de \u00e1gua em quantidade e qualidade. \u201cAo investir mais de US$ 1,5 bilh\u00e3o na recupera\u00e7\u00e3o de seus mananciais, a cidade americana deixou de gastar US$ 8 bilh\u00f5es nos mecanismos tradicionais\u201d, lembra Barr\u00eato, da The Nature Conservancy.<\/p>\n<p>Estudos da TNC apontam que a restaura\u00e7\u00e3o de apenas 3% de floresta em \u00e1reas priorit\u00e1rias dos sistemas Cantareira e Alto Tiet\u00ea, na Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo, por exemplo, poderia reduzir sedimentos de terra e areia dos rios e represas em at\u00e9 50%.<\/p>\n<p>Hoje chega a 40%, em m\u00e9dia, o \u00edndice de degrada\u00e7\u00e3o nos mananciais de grandes e m\u00e9dias cidades estudadas pela organiza\u00e7\u00e3o. O especialista faz um paralelo: se voc\u00ea tiver 40% do seu organismo debilitado, n\u00e3o vai funcionar da forma ideal. \u201cA mesma coisa com os mananciais: n\u00e3o adianta ter o n\u00edvel do reservat\u00f3rio cheio. Precisa da bacia \u00edntegra para que o solo filtre as impurezas, evite eros\u00e3o e assoreamento, at\u00e9 para n\u00e3o reduzir a vida \u00fatil desses reservat\u00f3rios. N\u00e3o adianta construir reservat\u00f3rio e continuar a degradar a mata ciliar, fazer estradas malfeitas que, quando chove, deixam terra e areia escorrer para os rios pr\u00f3ximos, e nem adotar pr\u00e1ticas agr\u00edcolas inadequadas, que contaminam a \u00e1gua com agrot\u00f3xicos e abusam da irriga\u00e7\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o, portanto, est\u00e1 na gest\u00e3o integrada de todos os sistemas, o que exige pol\u00edticas sintonizadas em torno de uma agenda de desenvolvimento sustent\u00e1vel e uma governan\u00e7a local que olhe para todo o territ\u00f3rio, conectando os pontos. S\u00f3 assim as \u00e1rvores, seus est\u00f4matos e todos n\u00f3s poderemos respirar aliviados, com sombra e \u00e1gua fresca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Am\u00e1lia Safatle Ao fazer a liga\u00e7\u00e3o entre produ\u00e7\u00e3o de alimentos, floresta, clima e energia, a \u00e1gua torna-se o fio capaz de engajar toda a sociedade em torno da\u00a0Agenda 2030. 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