{"id":3437,"date":"2021-09-23T16:25:07","date_gmt":"2021-09-23T19:25:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.p22on.com.br\/?p=3437"},"modified":"2022-02-22T07:48:13","modified_gmt":"2022-02-22T10:48:13","slug":"futuro-do-preterito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.p22on.com.br\/2021\/09\/23\/futuro-do-preterito\/","title":{"rendered":"Futuro do pret\u00e9rito"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, o Pa\u00eds n\u00e3o consegue avan\u00e7ar na solu\u00e7\u00e3o de seus problemas sociais mais b\u00e1sicos. Como o S do ESG pode contribuir para mudar esse destino? <\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Por <strong>Magali Cabral<\/strong> _ Foto: Heather Zabriskie\/ Unsplash<\/em><\/p>\n<p>\u201cBrasil, um pa\u00eds do futuro.\u201d A imagem enunciada no ensaio do escritor austr\u00edaco Stefan Zweig, publicado simultaneamente em v\u00e1rias l\u00ednguas, em 1941, parece ter cristalizado as mazelas sociais do Pa\u00eds no passado. Oitenta anos depois do vatic\u00ednio de Zweig, as desigualdades n\u00e3o s\u00f3 permaneceram como se enraizaram. Nesse per\u00edodo, o Brasil tornou-se um dos pa\u00edses mais desiguais do planeta, com 49,6% de toda a sua renda nas m\u00e3os do grupo de brasileiros mais ricos, como apurou o <a href=\"https:\/\/www.credit-suisse.com\/about-us\/en\/reports-research\/global-wealth-report.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Instituto Credit Suisse<\/a>. Sim, tamb\u00e9m houve avan\u00e7os. Mas, quando o pa\u00eds d\u00e1 alguns passos \u00e0 frente no campo da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade, dos direitos humanos, das articula\u00e7\u00f5es de movimentos sociais, entre tantas outras causas, parece que uma for\u00e7a contr\u00e1ria \u00e9 atra\u00edda para procrastinar o futuro desejado.<\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica e a mal-administrada pandemia de Covid-19, somadas a um governo insens\u00edvel aos problemas concretos da popula\u00e7\u00e3o, t\u00eam jogado uma lente sobre o S das pr\u00e1ticas ESG. A que demandas da sociedade as organiza\u00e7\u00f5es empresariais que aderiram a essa agenda podem tentar atender para minorar os problemas mais prementes? Antes de buscar essas respostas, \u00e9 importante entender se \u00e9 papel das empresas ir al\u00e9m do <a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/2021\/09\/23\/dicionario-notas-videos-dicas-afins\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>compliance<\/em><\/a> e participar da busca de solu\u00e7\u00f5es para as desigualdades sociais do Pa\u00eds, uma fun\u00e7\u00e3o tradicionalmente atribu\u00edda ao Estado.<\/p>\n<p>Para o historiador Creomar de Souza, s\u00f3cio da consultoria Dharma Political Risk and Strategy, grandes organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam menos capacidade do que um ente governativo tradicional para resolver isoladamente os problemas sociais que o Pa\u00eds acumula. \u201cMas elas podem responder a muitas demandas de maneira r\u00e1pida e, ao mesmo tempo, se alinhar a uma tend\u00eancia mercadol\u00f3gica\u201d, afirma. Para o consultor, a pandemia est\u00e1 provocando um choque de realidade profundo, pois traz uma percep\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social generalizada. \u201cMomentos sens\u00edveis como o atual podem ser indutores de boas pr\u00e1ticas\u201d, diz.<\/p>\n<p>No \u00e1pice da pandemia, parte consider\u00e1vel da comunidade empresarial que n\u00e3o aceitou o discurso negacionista saiu em busca de contribui\u00e7\u00f5es para reduzir o impacto provocado pela crise sanit\u00e1ria. Souza destaca a iniciativa da empres\u00e1ria Luiza Trajano, do Magazine Luiza, de auxiliar o poder p\u00fablico a agilizar a aquisi\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o de imunizantes contra a Covid-19. V\u00e1rias outras grandes corpora\u00e7\u00f5es uniram-se a ela. Ainda que sejam a\u00e7\u00f5es desvinculadas do neg\u00f3cio, para ele, essas movimenta\u00e7\u00f5es que surgem em tempos de crise revelam o qu\u00e3o potencialmente forte \u00e9 a capacidade das organiza\u00e7\u00f5es empresariais ESG serem for\u00e7as transformadoras.<\/p>\n<p>Apesar do bom exemplo, para o fundador da Dharma, a tropicaliza\u00e7\u00e3o do conceito est\u00e1 atrasada em rela\u00e7\u00e3o especialmente \u00e0 Europa Ocidental e aos Estados Unidos, o que n\u00e3o chega a ser uma novidade, considerando o desenrolar lento de outras agendas internacionais no Brasil, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ODS). \u201cCreio que, como tudo que envolve essas novidades, o Brasil acaba sendo um tanto perif\u00e9rico, pois temos essa voca\u00e7\u00e3o para o retardo. Nesse sentido, a pauta \u00e9 ainda incipiente e \u00e9 nitidamente puxada por companhias multinacionais que recebem uma press\u00e3o das suas matrizes para assumirem posicionamentos ativos de responsabiliza\u00e7\u00e3o por pautas ambientais, sociais ou de governan\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>O presidente do Instituto Ethos, Caio Magri, acredita que para dar materialidade ao ESG ser\u00e1 preciso, antes de mais nada, tropicaliz\u00e1-lo, o que depender\u00e1 de aumentar os holofotes justamente sobre o eixo social, aquele que carrega os dados mais injustos do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Dados que o economista Ladislau Dowbor, professor titular da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC-SP), n\u00e3o deixa seus leitores e interlocutores esquecerem: \u201cTemos hoje cerca de 19 milh\u00f5es de brasileiros com fome e aproximadamente 116 mil pessoas em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar \u2013 aqueles que ora t\u00eam, ora n\u00e3o t\u00eam o que comer. Dos 19 milh\u00f5es com fome, 25% s\u00e3o crian\u00e7as. \u00c9 um crime sem tamanho, principalmente porque a quantidade de alimento produzida no Pa\u00eds, se dividida igualmente entre toda a popula\u00e7\u00e3o, resultaria em mais de 4 quilos por dia por pessoa\u201d, contabiliza Dowbor. \u201cN\u00f3s chi\u00e1vamos no passado por causa da explora\u00e7\u00e3o do trabalhador, mas o que conhec\u00edamos do capitalismo produtivo funcionava melhor que o atual <a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/2021\/09\/23\/dicionario-notas-videos-dicas-afins\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">capitalismo extrativo<\/a>\u201d, arremata.<\/p>\n<p>A pesquisa <em>Desigualdade de Impactos Trabalhistas na Pandemia<\/em>, rec\u00e9m-lan\u00e7ada pelo Centro de Pol\u00edticas Sociais da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV Social), sob coordena\u00e7\u00e3o do economista Marcelo Neri, revela que a renda individual m\u00e9dia do brasileiro, incluindo trabalhadores informais, desempregados e inativos, encontra-se hoje 9,4% abaixo dos patamares do final de 2019. O <a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/2021\/09\/23\/dicionario-notas-videos-dicas-afins\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00cdndice de Gini<\/a> saltou para 0,64 no segundo trimestre de 2021, batendo o recorde de toda a s\u00e9rie hist\u00f3rica dessa m\u00e9trica de desigualdade socioecon\u00f4mica.<\/p>\n<p>Arrega\u00e7ar as mangas para enfrentar tamanha desigualdade j\u00e1 seria desafiador para governos s\u00e9rios e bem capacitados, o que dir\u00e1 para o setor privado. A coordenadora da organiza\u00e7\u00e3o filantr\u00f3pica Iniciativa Brasil da Alian\u00e7a pelo Clima e Uso da Terra (CLUA, na sigla em ingl\u00eas), Daniela Lerda, v\u00ea o ESG ainda envolto em um mundo de ideias. \u201cAs empresas tentam encaixar no conceito de ESG as a\u00e7\u00f5es sociais que t\u00eam em andamento, o que n\u00e3o significa que estejam transformando a forma de fazerem as coisas\u201d, diz.<\/p>\n<p>A gestora \u00e9 c\u00e9tica tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o a uma poss\u00edvel disposi\u00e7\u00e3o do setor privado em extrapolar as fronteiras de seu ambiente de neg\u00f3cios em prol da redu\u00e7\u00e3o das desigualdades brasileiras. \u201cSeria \u00f3timo se isso acontecesse, mas, na maioria das vezes, quando o privado aparece \u00e9 para defender seus pr\u00f3prios interesses. A empresa reporta ESG mas \u00e9 representada por uma associa\u00e7\u00e3o que compactua com projetos de flexibiliza\u00e7\u00e3o de regras, sejam trabalhistas, sejam ambientais, que trar\u00e3o um impacto negativo para o conjunto da sociedade\u201d, opina.<\/p>\n<p>Antes de se posicionar sobre a participa\u00e7\u00e3o da iniciativa privada em quest\u00f5es sociais do Pa\u00eds, o soci\u00f3logo Gilson Schwartz, professor da Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo (ECA-USP), ressalva que \u00e9 preciso tomar cuidado para n\u00e3o achar que uma empresa \u00e9 o melhor crit\u00e9rio para avalia\u00e7\u00e3o da qualidade dos direitos sociais. Dito isso, ele considera o S do ESG uma iniciativa importante, desde que a empresa n\u00e3o incorra em hipocrisia: seus indicadores sociais s\u00e3o \u00f3timos, mas em uma sociedade que desconsidera direitos sociais.<\/p>\n<p>\u201cA inclus\u00e3o de mulheres, negros ou pessoas com necessidades especiais na for\u00e7a de trabalho pode render um \u00f3timo indicador de ESG. Por\u00e9m, dentro de um contexto em que representantes da sociedade, governo e legislativo est\u00e3o na pr\u00e1tica eliminando direitos e precarizando as condi\u00e7\u00f5es de trabalho. O Uber, por exemplo, poder\u00e1 dizer que seu indicador S est\u00e1 excelente\u201d, observa.<\/p>\n<p><strong>Contradi\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Pois \u00e9 nesse tipo de contradi\u00e7\u00e3o apontada por Schwartz que Anna Lygia Costa Rego, professora de Economia Comportamental e Psicologia Experimental aplicada ao Direito na Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV), v\u00ea a beleza de se trabalhar com ESG, cuja miss\u00e3o \u00e9 exatamente desatar esses n\u00f3s. Al\u00e9m das tentativas de flexibiliza\u00e7\u00e3o das regras trabalhistas t\u00e3o duramente conquistadas, ela lembra que existe tamb\u00e9m o desafio de uma revolu\u00e7\u00e3o digital em curso.<\/p>\n<p>\u201cBoa parte de empresas que inovam em sistemas tecnol\u00f3gicos, como nos servi\u00e7os de entrega e de transporte individual com motoristas aut\u00f4nomos, chegou com um discurso que a princ\u00edpio pareceu compat\u00edvel com o ESG. Na pr\u00e1tica, n\u00e3o era bem isso. Era o mito do empreendedorismo que substitui a rela\u00e7\u00e3o de emprego por uma rela\u00e7\u00e3o de autonomia\/empreendedorismo, em que se partilham os benef\u00edcios do neg\u00f3cio, mas n\u00e3o os riscos<em>\u201d, <\/em>explica a professora (<em><strong>leia aqui<\/strong> a \u00edntegra da entrevista).<\/em><\/p>\n<p>Nesse sentido, a economista defende que o <em>walk the talk<\/em> (fazer o que fala, em tradu\u00e7\u00e3o livre) do ESG seria atuar na revers\u00e3o desse processo de flexibiliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho. \u201cO <em>walk the talk<\/em> no ESG significa abrir m\u00e3o da recompensa imediata, at\u00e9 do lucro, para obter um benef\u00edcio que n\u00e3o necessariamente vir\u00e1 para si. Temos uma dificuldade muito grande em lidar com o altru\u00edsmo, n\u00e3o no sentido romantizado do termo, mas de enxergar o benef\u00edcio coletivo como um retorno econ\u00f4mico individual\u201d, reflete Rego.<\/p>\n<p>O desequil\u00edbrio no andamento das pautas ESG no Brasil em rela\u00e7\u00e3o a pa\u00edses desenvolvidos, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o ao S, para a professora da FGV, faz um certo sentido: \u201cS\u00e3o pontos de partida totalmente distintos. Os pa\u00edses ricos partem de um patamar que lhes permite sofisticar a discuss\u00e3o da seguran\u00e7a social. No entanto, o fato de a nossa situa\u00e7\u00e3o de escassez real e percebida ser muito maior no Brasil confere ao ESG tropical um poder transformador tamb\u00e9m muito maior\u201d, diz.<\/p>\n<p>Contradi\u00e7\u00f5es na esfera das rela\u00e7\u00f5es entre o p\u00fablico e o privado tamb\u00e9m precisam ser superadas para que os impactos positivos do ESG comecem a aparecer. \u00c9 como pensa o cofundador e diretor da Fama Investimentos, Fabio Alperowitch. Grande parte dos empres\u00e1rios brasileiros, segundo ele, diz-se liberal na economia \u2013 quanto menos intervencionista for o Estado, melhor para o desenvolvimento. No entanto, quando se trata de resolver quest\u00f5es sociais, a tarefa \u00e9 toda empurrada para o poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>\u201cAs empresas [que carregam o \u2018selo\u2019 ESG] precisam refletir que o papel delas na sociedade vai al\u00e9m da venda de produtos ou servi\u00e7os\u201d, afirma. Esse \u201cir al\u00e9m\u201d significa, no m\u00ednimo, estar alinhado \u00e0 mudan\u00e7a do capitalismo de <em>shareholders<\/em>, em que as empresas priorizam s\u00f3 o lucro dos acionistas, para um <a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/2021\/09\/23\/dicionario-notas-videos-dicas-afins\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">capitalismo de <em>stakeholders<\/em><\/a>, que leva em considera\u00e7\u00e3o os impactos da produ\u00e7\u00e3o para todas as partes interessadas (por exemplo, funcion\u00e1rios, consumidores, clientes, comunidade local).<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Sem essas transforma\u00e7\u00f5es mais estruturais<em>, <\/em>ser\u00e1 dif\u00edcil transpor o ESG do discurso para a realidade. Para o fundador da Fama Investimentos, o pa\u00eds est\u00e1 \u201catrasad\u00edssimo\u201d, especialmente as empresas que geram muita externalidade negativa. \u201cA ades\u00e3o \u00e0 agenda \u00e9 discutida por uma elite, um n\u00famero pequeno de empresas listadas em bolsa. Milhares de outras mal come\u00e7aram a falar sobre o conceito. Enquanto isso, continuamos sendo um dos pa\u00edses mais desiguais do mundo e o segundo com mais acidentes de trabalho\u201d, assinala.<\/p>\n<p>Mas existe uma janela de oportunidade para fazer a pauta avan\u00e7ar. Alperowitch acredita que a gera\u00e7\u00e3o Z, das pessoas nascidas entre 1995 e 2010, j\u00e1 est\u00e1 subindo a r\u00e9gua na cobran\u00e7a de posicionamentos das empresas sobre as grandes quest\u00f5es da sociedade. Vinte anos atr\u00e1s, posicionamentos sobre racismo, desmatamento ou corrup\u00e7\u00e3o nem sequer faziam parte das demandas da sociedade. \u201cNaquele tempo, uma empresa omissa era uma empresa normal\u201d, diz ele. \u201cHoje, uma empresa omissa \u00e9 uma empresa com problemas\u201d, completa.<\/p>\n<p>Segundo o executivo, mesmo para os que s\u00f3 t\u00eam olhos para o retorno financeiro \u00e9 fundamental que suas marcas corporativas estejam vinculadas a grandes causas, sejam sociais, sejam ambientais. \u201cJ\u00e1 vemos v\u00e1rias empresas come\u00e7ando a falar de racismo, outras de desmatamento, outras de inclus\u00e3o social. Acho que essa \u00e9 uma necessidade cada vez maior, e quem n\u00e3o entrar nesse debate corre o risco de ser marginalizado enquanto marca e enquanto empresa\u201d, adverte.<\/p>\n<p><strong>ESG na cadeia de valor<\/strong><\/p>\n<p>Se a decolagem da agenda est\u00e1 lenta no universo das grandes empresas, um desdobramento ainda mais complexo do ESG ser\u00e1 levar esses mesmos compromissos \u00e0s milhares de m\u00e9dias e pequenas empresas inclu\u00eddas em cadeias de valor. Como afirma Gilson Schwartz, de nada adianta a empresa exibir indicadores maravilhosos se seus fornecedores n\u00e3o estiverem tamb\u00e9m integrados ao ESG. \u00c9 a partir dessa capilariza\u00e7\u00e3o que os impactos se far\u00e3o notar.<\/p>\n<p>\u201cMas \u00e9 dif\u00edcil imaginar que todo mundo far\u00e1 isso espontaneamente, muito menos que as grandes corpora\u00e7\u00f5es ir\u00e3o verificar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho de cada um de seus fornecedores, se eles mesmos n\u00e3o tiverem uma governan\u00e7a que torne seus processos decis\u00f3rios mais vis\u00edveis aos seus clientes\u201d, diz Schwartz (<em>mais sobre governan\u00e7a <a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/2021\/09\/23\/o-xadrez-da-governanca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>nesta reportagem<\/strong><\/a><\/em>).<\/p>\n<p>As m\u00e9tricas s\u00e3o a principal ferramenta para dar materialidade \u00e0s a\u00e7\u00f5es ESG. Elas dificultam o <em>greenwashing, <\/em>geram comparabilidade, contabilizam riscos, entre outras vantagens. Para Anna Rego, apesar de muito importantes, nelas pode estar um dos entraves para que o ESG chegue \u00e0s cadeias de valor. O problema, a seu ver, \u00e9 que o desenvolvimento das m\u00e9tricas est\u00e1 totalmente voltado \u00e0s grandes empresas listadas em bolsa de valores, portanto com um <em>framework, <\/em>ou um escopo, muito pesado.<\/p>\n<p>\u201cQuem far\u00e1 o <em>score<\/em> das empresas que est\u00e3o nas franjas do neg\u00f3cio?\u201d, indaga. \u201cTodo mundo precisa e pode ter seus impactos sociais relatados, n\u00e3o s\u00f3 as <em>big corporations.<\/em>\u201d O ESG como m\u00e9trica, como arcabou\u00e7o, tem de ser de todos, cada estrutura com a sua r\u00e9gua. Anna Rego sugere m\u00e9tricas que considerem outros benef\u00edcios para pequenas e m\u00e9dias empresas relacionados, por exemplo, \u00e0 fideliza\u00e7\u00e3o de consumidores. \u201cElas n\u00e3o precisam de superprojetos. Apoiar a escolinha da esquina j\u00e1 \u00e9 o suficiente para o cliente ter uma percep\u00e7\u00e3o diferente da empresa\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Caio Magri tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de o ESG chegar \u00e0s cadeias produtivas, especialmente dos setores mais cr\u00edticos da economia, como o agroneg\u00f3cio, que ocupa territ\u00f3rios imensos com opera\u00e7\u00f5es altamente impactantes. \u201cAl\u00e9m de interven\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e mec\u00e2nicas nas \u00e1reas ocupadas, h\u00e1 um impacto crescente e insustent\u00e1vel nos recursos h\u00eddricos, uma situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de expans\u00e3o das \u00e1reas para a produ\u00e7\u00e3o, sem falar em trabalho escravo, desmatamento ilegal, entre outros complicadores.\u201d<\/p>\n<p>O presidente do Ethos tamb\u00e9m considera fundamental a constru\u00e7\u00e3o de plataformas com indicadores e m\u00e9tricas adequadas \u00e0s pequenas e m\u00e9dias empresas das cadeias produtivas.<\/p>\n<p><strong>For\u00e7a relativa\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O sistema financeiro, como o grande indutor do ESG no Brasil e no mundo, est\u00e1 conseguindo subir a r\u00e9gua nas empresas? \u201cSim, mas talvez pudesse fazer bem mais, principalmente no campo social. N\u00f3s acreditamos que por meio do capital \u00e9 poss\u00edvel mudar o mercado. Se os grandes investidores fizessem o que n\u00f3s fazemos, nem estar\u00edamos aqui discutindo essa pauta.\u201d A resposta \u00e9 de Fernanda Camargo, fundadora da Wright Capital, um <em>family office<\/em> (gestor do patrim\u00f4nio de fam\u00edlias que buscam transforma\u00e7\u00e3o social) que aloca 1% do patrim\u00f4nio dos clientes em fundos de investimentos para neg\u00f3cios de impacto social. Segundo ela, os retornos em neg\u00f3cios de impacto j\u00e1 se equiparam aos tradicionais, e o percentual investido s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 maior porque ainda faltam op\u00e7\u00f5es nesse mercado.<\/p>\n<p>Para Alperowitch, da Fama, o setor financeiro at\u00e9 o momento enxerga somente a si pr\u00f3prio e ignora a sua cadeia de valor. Ele afirma que os bancos se gabam de serem amigos do clima, sendo que partem de uma posi\u00e7\u00e3o vantajosa em rela\u00e7\u00e3o ao setor produtivo: ag\u00eancias banc\u00e1rias conseguem ser carbono neutro com facilidade, pois quase n\u00e3o emitem gases de efeito estufa. O problema \u00e9 que continuam financiando combust\u00edveis f\u00f3sseis, carv\u00e3o e outros setores controversos.<\/p>\n<p>\u201cSe o sistema financeiro quiser realmente ser amigo do clima, precisa olhar a carteira de clientes. O mesmo vale para quest\u00f5es sociais: n\u00e3o adianta o banco relatar a sua diversidade bacana, se os clientes que ele tem financiado v\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria\u201d, diz Alperowitch.<\/p>\n<p>Mesmo olhando mais para si mesmo, h\u00e1 no sistema financeiro uma desigualdade social interna para a qual ainda n\u00e3o houve respostas concretas. Creomar Souza lembra das press\u00f5es recentes acerca de desigualdades salariais internas. Ele acredita que essa discuss\u00e3o n\u00e3o amadureceu porque o Pa\u00eds passa por um momento t\u00e3o inst\u00e1vel que coloca outras urg\u00eancias no topo da lista.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto na Europa a diferen\u00e7a salarial entre banqueiro e banc\u00e1rio vai sendo trabalhada, aqui estamos preocupados com o fato de o ovo ter se tornado o novo bife\u201d, diz Souza. Ou seja, as crises econ\u00f4micas, al\u00e9m de engrossarem a rela\u00e7\u00e3o de problemas sociais, emperram o andamento de quest\u00f5es que j\u00e1 vinham sendo discutidas. De qualquer modo, o historiador parte da premissa de que o ESG n\u00e3o trar\u00e1 resultados expressivos imediatos. \u201cEstamos falando de uma escala de uma d\u00e9cada ou duas. Mas chegar\u00e1 o momento em que os bancos voltar\u00e3o a ser cobrados por seus clientes.\u201d<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Por onde come\u00e7ar a transforma\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong><em>Diversidade nas empresas e educa\u00e7\u00e3o financeira s\u00e3o indutores de mudan\u00e7a; entenda por qu\u00ea<\/em><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.mckinsey.com\/business-functions\/organization\/our-insights\/delivering-through-diversity\/pt-br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Estudo<\/a> realizado pela consultoria de gest\u00e3o estrat\u00e9gica McKinsey &amp; Company estabelece um v\u00ednculo entre diversidade e performance financeira empresarial. \u201cMaior propor\u00e7\u00e3o de mulheres e uma composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e cultural mais variada na lideran\u00e7a das empresas resultam em performance financeira superior\u201d, diz a pesquisa.<\/p>\n<p>O motivo desse v\u00ednculo, segundo a professora da FGV Anna Rego, est\u00e1 na tese de que empresas s\u00e3o ecossistemas com muitos pontos de contato com aspectos evolutivos do comportamento humano. \u201cColaboradores com bagagens, processos cognitivos e experi\u00eancias diferentes aumentam a capacidade de a empresa performar melhor em diferentes m\u00e9tricas.\u201d<\/p>\n<p>Como exemplo, ela cita a melhoria na improvisa\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o conhecidas, a adaptabilidade a situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o previstas, a capacidade de fazer an\u00e1lises com mais nuances sobre riscos e sobre diferentes cen\u00e1rios. \u201cAl\u00e9m disso, quando se tem todo mundo representado na mesa, a chance de sair uma posi\u00e7\u00e3o completamente invertida, do ponto de vista de aceita\u00e7\u00e3o social, \u00e9 muito menor. Um ambiente com diversidade \u00e9 muito mais seguro para a empresa\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O banco digital Nubank, por exemplo, deu-se conta de que estava sendo omisso em rela\u00e7\u00e3o ao racismo estrutural brasileiro ao ver a repercuss\u00e3o negativa de uma declara\u00e7\u00e3o da cofundadora da institui\u00e7\u00e3o, Cristina Junqueira. No ano passado, em entrevista ao programa <em>Roda Viva<\/em>, da TV Cultura, ela afirmou ter dificuldade de contratar executivos negros para posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a por falta dos requisitos t\u00e9cnicos que julga necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>As redes sociais n\u00e3o perdoaram, e o banco publicou uma retrata\u00e7\u00e3o, admitindo ter se acomodado com o progresso da institui\u00e7\u00e3o nos primeiros anos de vida<em>. <\/em>\u201cO erro foi achar que as coisas v\u00e3o se resolvendo sozinhas, sem esfor\u00e7os cont\u00ednuos e investimentos da lideran\u00e7a\u201d, diz a nota. No comunicado, o banco tamb\u00e9m se comprometeu a avan\u00e7ar com uma agenda de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e de combate ao racismo estrutural. Para fazer isso, anunciou parceria com o Instituto Identidades do Brasil.<\/p>\n<p>Creomar Souza v\u00ea no movimento de retrata\u00e7\u00e3o e nos comprometimentos posteriores do Nubank um processo de azeitamento das engrenagens das empresas decorrente do ESG. Segundo ele, existem organiza\u00e7\u00f5es mais aptas, cujas pr\u00e1ticas afirmativas nascem dentro do pr\u00f3prio Conselho de Administra\u00e7\u00e3o e que j\u00e1 est\u00e3o conquistando merecidos ganhos reputacionais, como foi o caso do Magazine Luiza. Outras, mais anacr\u00f4nicas, j\u00e1 come\u00e7am a perceber a impossibilidade de sobreviver no mercado sem uma reflex\u00e3o e uma mudan\u00e7a de cultura interna.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de Anna Costa Rego, o epis\u00f3dio do Nubank acabou se transformando em um <em>case<\/em> positivo. Por mais que a declara\u00e7\u00e3o da cofundadora da institui\u00e7\u00e3o tenha sido infeliz, o Nubank continua o debate sobre aquela quest\u00e3o at\u00e9 hoje. \u201cQuando uma organiza\u00e7\u00e3o p\u00f5e o dedo na pr\u00f3pria ferida, isto \u00e9, continua dialogando permanentemente sobre um problema dela mesma, em vez de abaf\u00e1-lo, mostra uma atitude madura que n\u00e3o v\u00edamos h\u00e1 muito tempo.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m da retrata\u00e7\u00e3o, a professora conta que houve a contrata\u00e7\u00e3o de pessoas de perfis \u00e9tnicos \u2013 existe uma diversidade muito grande nas equipes, n\u00e3o s\u00f3 racial, mas com v\u00e1rias outras caracter\u00edsticas \u2013, e muita reflex\u00e3o sobre o que mais pode ser feito.<\/p>\n<p><strong>Educa\u00e7\u00e3o financeira<\/strong> <strong>&#8211; <\/strong>A educa\u00e7\u00e3o financeira deve ser uma bandeira em qualquer sistema de cr\u00e9dito. Quando se liberam inova\u00e7\u00f5es, como o <em>open banking<\/em>, o Pix e outras infraestruturas financeiras inclusivas, o que \u00e9 positivo, \u00e9 preciso garantir que nos dois lados do balc\u00e3o estejam pessoas capacitadas para lidar responsavelmente com o cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>Embora a Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios (CVM) mantenha h\u00e1 muito anos uma pauta de educa\u00e7\u00e3o financeira, o superendividamento das pessoas no Brasil bate recordes atr\u00e1s de recordes. Segundo o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), o endividamento atingiu nos \u00faltimos meses pelo menos 30 milh\u00f5es de brasileiros, com tend\u00eancia de aumento em decorr\u00eancia da pandemia e do desemprego. Como n\u00e3o h\u00e1 iniciativas fortes por partes dos bancos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 problem\u00e1tica, foi necess\u00e1ria a cria\u00e7\u00e3o da Lei n\u00ba 14.181, em julho de 2021, obrigando as institui\u00e7\u00f5es financeiras a parar de exercer qualquer tipo de press\u00e3o para seduzir clientes.<\/p>\n<p>Anna\u00a0 Rego lembra que o superendividamento vai al\u00e9m de uma quest\u00e3o meramente financeira que se liquida numa transa\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma situa\u00e7\u00e3o de fal\u00eancia individual, uma declara\u00e7\u00e3o de que a pessoa est\u00e1 incapacitada de lidar com o cronograma de pagamentos que tem com credores. \u201cUma pessoa que chega a uma situa\u00e7\u00e3o de incapacidade de organizar seu fluxo de pagamentos \u00e9 algu\u00e9m que est\u00e1 com muitos problemas, inclusive em outras searas. Vulner\u00e1vel socialmente, em termos de sa\u00fade mental. Quando o sistema financeiro oferece os instrumentos, mas n\u00e3o apoia o indiv\u00edduo a lidar melhor com a d\u00edvida, talvez esteja oferecendo a sobremesa antes do jantar\u201d, conclui.<\/p>\n<p><em>Leia mais <a href=\"https:\/\/pagina22.com.br\/2021\/10\/16\/mudanca-se-escreve-com-s\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">nesta entrevista<\/a><\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, o Pa\u00eds n\u00e3o consegue avan\u00e7ar na solu\u00e7\u00e3o de seus problemas sociais mais b\u00e1sicos. Como o S do ESG pode contribuir para mudar esse destino? 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