{"id":3439,"date":"2021-09-23T16:49:15","date_gmt":"2021-09-23T19:49:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.p22on.com.br\/?p=3439"},"modified":"2022-02-22T07:47:31","modified_gmt":"2022-02-22T10:47:31","slug":"desafios-interligados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.p22on.com.br\/2021\/09\/23\/desafios-interligados\/","title":{"rendered":"Desafios interligados"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>A urg\u00eancia clim\u00e1tica \u2013 conectada a desmatamento, escassez h\u00eddrica, crise energ\u00e9tica e infla\u00e7\u00e3o \u2013 destaca-se no componente ambiental do ESG no Pa\u00eds. Empresas e setor financeiro buscam mitigar riscos e aproveitar oportunidades em um horizonte curto para n\u00e3o acontecer o pior<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Por <strong>S\u00e9rgio Adeodato _\u00a0<\/strong><\/em><em>Foto: YinYang\/ iStock<\/em><\/p>\n<p>Genebra, Su\u00ed\u00e7a, setembro de 2009. O vaiv\u00e9m de funcion\u00e1rios no sagu\u00e3o daquele pr\u00e9dio de vidros verdes em estilo futurista sinaliza o protagonismo que o tema l\u00e1 trabalhado alcan\u00e7aria nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo. No edif\u00edcio da World Meteorological Organization (WMO), o oitavo andar \u00e9 a meca dos alertas cient\u00edficos em torno do que hoje se configura como os maiores riscos ao planeta. L\u00e1 funciona a sede do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC, na sigla em ingl\u00eas), na \u00e9poca j\u00e1 no notici\u00e1rio pelo tom dos avisos sobre impactos ambientais, sociais e econ\u00f4micos do aquecimento global que muitos se negavam a acreditar.<\/p>\n<p>Os corredores guardam hist\u00f3rias desse longo caminho de cen\u00e1rios para um desafio que atualmente marca a vida dos neg\u00f3cios, desenhado desde o primeiro relat\u00f3rio cient\u00edfico da institui\u00e7\u00e3o, em 1990, como suporte \u00e0 Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica, realizada em 1992, no Rio de Janeiro, a Rio-92.<\/p>\n<p>No terra\u00e7o do pr\u00e9dio, a cafeteria com vista para os jardins da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) \u00e9 prop\u00edcia \u00e0s conversas de bastidores e entrevistas inspiradoras para a reportagem <em>Senhores do tempo<\/em> (publicada no <em>Valor Econ\u00f4mico<\/em>), tamb\u00e9m baseada na 3\u00aa Confer\u00eancia Mundial sobre o Clima para a qual jornalistas de todo o mundo foram convidados para acesso a dados cient\u00edficos in\u00e9ditos, no Centro de Conven\u00e7\u00f5es da cidade. Naquele quente fim de ver\u00e3o europeu, o indiano Rajendra Pachauri, ent\u00e3o presidente do IPCC, deixara claro: \u201cN\u00e3o queremos empurrar nada para baixo do tapete\u201d. E adverte: \u201cO tempo \u00e9 curto: adiar a a\u00e7\u00e3o s\u00f3 aumenta o problema\u201d.<\/p>\n<p>De Genebra, o grupo de jornalistas emite carbono nas viagens de avi\u00e3o e terrestres para conhecer impactos j\u00e1 sentidos no mundo: das montanhas de neve que derretem em Chamonix, na Fran\u00e7a, ao avan\u00e7o do Deserto do Saara, no Mali, \u00c1frica. Tudo na expedi\u00e7\u00e3o refor\u00e7a o futuro sombrio das proje\u00e7\u00f5es feitas pelos relat\u00f3rios, em torno do derretimento completo de geleiras no \u00c1rtico at\u00e9 2020 e perda anual de gelo na Ant\u00e1rtica igual a seis lagos da Usina de Itaipu. Os impactos do clima para a ind\u00fastria de seguros j\u00e1 eram estimados em US$ 41 bilh\u00f5es anuais na d\u00e9cada seguinte.<\/p>\n<p>Manter o carbono em n\u00edvel seguro de temperatura custaria entre US$ 500 bilh\u00f5es e US$ 1 trilh\u00e3o por ano. Para isso, o antigo c\u00e1lculo era de que, anualmente, os pa\u00edses ricos deveriam repassar aos menos desenvolvidos entre US$ 500 bilh\u00f5es e US$ 600 bilh\u00f5es, acima do que havia sido previsto pelo Departamento de Assuntos Econ\u00f4micos e Sociais das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Erros ou acertos de proje\u00e7\u00f5es \u00e0 parte, o investimento em informa\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica evolu\u00eda como caminho para gerir riscos e perceber as oportunidades da mudan\u00e7a do clima.<\/p>\n<p>Passaram-se 12 anos, e agora o mundo se v\u00ea diante do sexto relat\u00f3rio de avalia\u00e7\u00e3o do IPCC \u2013 sigla n\u00e3o mais restrita ao gueto de cientistas e ambientalistas. S\u00e3o mais de 3,5 mil p\u00e1ginas, 50 s\u00f3 de resumo executivo, com conte\u00fado mais claro e robusto sobre os impactos dos eventos clim\u00e1ticos extremos j\u00e1 em curso no planeta, e um atlas interativo que deixa a informa\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima de cada um.<\/p>\n<p>Qual o or\u00e7amento de carbono necess\u00e1rio para que os servi\u00e7os prestados pelo sistema clim\u00e1tico n\u00e3o entrem em colapso? Em s\u00edntese, como preconiza o Acordo Clim\u00e1tico de Paris, se n\u00e3o quisermos ir al\u00e9m de 1,5 grau de aumento da temperatura desde o per\u00edodo pr\u00e9-industrial, \u00e9 necess\u00e1rio limitar o carbono a 480 gigatoneladas at\u00e9 2050. Isso exige zerar as emiss\u00f5es em 12 anos \u2013 cen\u00e1rio que dever\u00e1 mobilizar as negocia\u00e7\u00f5es na confer\u00eancia clim\u00e1tica de Glasgow, em novembro, para a ado\u00e7\u00e3o de novos instrumentos e compromissos capazes de evitar o pior.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos demais alertas \u00e9 que, agora, o mundo das finan\u00e7as est\u00e1 na corrida contra riscos que adquirem fei\u00e7\u00f5es sist\u00eamicas e colocam as economias globais em perigo, com curto horizonte de tempo para reagir. No esteio do movimento de investidores para mudan\u00e7as no fluxo de capital, o <em>boom<\/em> ESG (crit\u00e9rios ambientais, sociais e de governan\u00e7a, na sigla em ingl\u00eas) influencia o contexto da produ\u00e7\u00e3o e do consumo, e tem no aspecto ambiental a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e a crise h\u00eddrica como principais desafios.<\/p>\n<p><strong>Mudan\u00e7a no fluxo de capital?<\/strong><\/p>\n<p>Os riscos amea\u00e7am a retomada econ\u00f4mica no mundo p\u00f3s-pandemia. \u201cFaltam velocidade e ambi\u00e7\u00e3o: como sociedade, estamos muito aqu\u00e9m dos investimentos necess\u00e1rios e precisamos de esfor\u00e7o imediato\u201d, adverte Laura Albuquerque, gerente de finan\u00e7as sustent\u00e1veis da WayCarbon.<\/p>\n<p>Dos US$ 2 trilh\u00f5es a US$ 4 trilh\u00f5es por ano estimados para a transi\u00e7\u00e3o, segundo a Climate Policy Initiative, o patamar est\u00e1 em US$ 1 trilh\u00e3o. \u201cH\u00e1 uma grande lacuna na substitui\u00e7\u00e3o do modelo tradicional e o atual movimento \u00e9 tardio\u201d, afirma Albuquerque. Ela v\u00ea capacidade de reduzir consideravelmente o impacto da mudan\u00e7a do clima, pelo menos para escapar do pior dos cen\u00e1rios, al\u00e9m dos 2 graus de aquecimento. \u201cJ\u00e1 temos os custos financeiros da redu\u00e7\u00e3o de carbono e precisamos acelerar de modo que os da adapta\u00e7\u00e3o aos impactos n\u00e3o se somem de forma imediata\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p>Em sua an\u00e1lise, \u00e9 preciso barrar os investimentos em carv\u00e3o e petr\u00f3leo e, no Brasil, estancar o desmatamento, permitindo que diferentes setores embarquem de forma mais efetiva no baixo carbono. \u201cMas temos um abismo completo de vis\u00e3o de pol\u00edtica p\u00fablica\u201d, diz.<\/p>\n<p>De acordo com a Global Landscape of Climate Finance Initiative, em 2018 os investimentos em atividades renov\u00e1veis representaram US$ 300 bilh\u00f5es, um ter\u00e7o do destinado ao carv\u00e3o, \u00f3leo, g\u00e1s e demais cadeias f\u00f3sseis na energia, que somaram US$ 900 bilh\u00f5es. O estudo, realizado a cada dois anos, dever\u00e1 mostrar novos dados neste ano, sob o efeito da pandemia, dos compromissos <a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/2021\/09\/23\/dicionario-notas-videos-dicas-afins\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong><em>net zero<\/em> <\/strong><\/a>e de novas regula\u00e7\u00f5es do mercado financeiro. Entre 2015 e 2018, enquanto o investimento f\u00f3ssil reduziu entre US$ 100 milh\u00f5es e US$ 150 milh\u00f5es, nas fontes renov\u00e1veis o crescimento n\u00e3o ocorreu na mesma propor\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Network for Greening the Financial System (NGFS) articula bancos centrais do mundo para regula\u00e7\u00f5es alinhadas \u00e0 ci\u00eancia e apoio \u00e0 transi\u00e7\u00e3o para o baixo carbono, mas levantamento do <a href=\"https:\/\/www.banktrack.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">BankTrack<\/a> mostra que a maioria permanece na contram\u00e3o. E carrega junto os bancos privados, com o paradoxo que concilia opera\u00e7\u00f5es f\u00f3sseis nas carteiras \u00e0 expans\u00e3o no lan\u00e7amento de t\u00edtulos verdes, conforme dados do <a href=\"https:\/\/www.greenbondtransparency.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Green Bonds Transparency Platform<\/a>.<\/p>\n<p>Os holofotes diferenciam o joio do trigo, pois institui\u00e7\u00f5es financeiras podem utilizar o capital como combust\u00edvel para inc\u00eandios florestais e viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, ao liberar cr\u00e9dito ou investir em empresas sem exigir o m\u00ednimo de crit\u00e9rios socioambientais ou promover engajamento (<em>leia mais em &#8220;O Mundo das Finan\u00e7as Acorda&#8221;, a seguir<\/em>). Segundo o <a href=\"https:\/\/guiadosbancosresponsaveis.org.br\/bancos\/estudos\/investimentos-desmatamento-amazonia-e-cerrado-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Guia dos Bancos Respons\u00e1veis<\/a>, institui\u00e7\u00f5es financeiras da Holanda, Alemanha e Noruega investem quase R$ 60 bilh\u00f5es em empresas que contribuem com desmatamento no Brasil.<\/p>\n<p>Nessa toada, o banco de dados da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) mostra que os US$ 336 bilh\u00f5es alocados para medidas de recupera\u00e7\u00e3o ambientalmente positivas no cen\u00e1rio da pandemia s\u00e3o quase igualados por medidas n\u00e3o verdes, considerando-se iniciativas de valor monet\u00e1rio. Metas de emiss\u00f5es l\u00edquidas zero em 2025 est\u00e3o ganhando terreno no G20, as 20 maiores economias do mundo, mas cerca de 54% do suporte dado por esses pa\u00edses ao setor de energia foram direcionados para combust\u00edveis f\u00f3sseis, em 2020.<\/p>\n<p>Grandes corpora\u00e7\u00f5es intensivas em carbono, como as de cimento e siderurgia, investem em mudan\u00e7as de processos produtivos, mas ainda com baixa escala nas opera\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias e inexpressivo avan\u00e7o nas cadeias de pequenas e m\u00e9dias empresas, desprovidas de conhecimento t\u00e9cnico e compromissos ambientais. \u201cAs transforma\u00e7\u00f5es dependem do n\u00edvel de press\u00e3o de investidores\u201d, observa Albuquerque. Com um detalhe: \u201cN\u00e3o tem como o setor financeiro atuar se o \u00f3rg\u00e3o regulador n\u00e3o fiscalizar e os governos n\u00e3o estiverem alinhados no mesmo objetivo\u201d.<\/p>\n<p><strong>O mito da desmaterializa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Para Ricardo Abramovay, pesquisador s\u00eanior do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de S\u00e3o Paulo, o <em>lobby<\/em> das atividades f\u00f3sseis \u2013 em dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es \u2013 tem um agravante adicional: \u201cEst\u00e1 conseguindo inserir no Plano Biden tecnologias de captura de carbono de efici\u00eancia n\u00e3o comprovada, como feiti\u00e7os que se voltam contra o feiticeiro\u201d.<\/p>\n<p>O professor lembra sobre o risco \u201ctecnofatalista\u201d, mencionado por Elizabeth Kolbert no livro <em>A Sexta Extin\u00e7\u00e3o<\/em>. E refor\u00e7a que \u201cvivemos no mundo que produz a ilus\u00e3o da economia desmaterializada, mas apesar das li\u00e7\u00f5es da pandemia e da explos\u00e3o do com\u00e9rcio <em>online<\/em>, o uso de materiais [com impactos ao planeta e ao clima] n\u00e3o est\u00e1 sendo reduzido\u201d.<\/p>\n<p>Segundo o <a href=\"https:\/\/www.resourcepanel.org\/data-resources\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">International Resource Panel<\/a>, ligado \u00e0 ONU, em 20 anos a produ\u00e7\u00e3o de materiais (a\u00e7o, ferro, cimento, pl\u00e1stico e madeira) aumentou de 15% para 23% a participa\u00e7\u00e3o nos gases estufa do planeta. Dois ter\u00e7os dos materiais s\u00e3o usados para produzir bens de capital, como estradas, edif\u00edcios e m\u00e1quinas, enquanto o restante se destina a bens de consumo, como geladeiras e ve\u00edculos.<\/p>\n<p>O estudo aponta que as emiss\u00f5es de materiais de edif\u00edcios residenciais nos pa\u00edses ricos do G7 e China poderiam ser reduzidas em pelo menos 80% em 2050, por meio do uso mais intensivo, design com menos materiais, mais reciclagem de materiais de constru\u00e7\u00e3o e outras estrat\u00e9gias. Redu\u00e7\u00f5es significativas, de at\u00e9 70% nos pa\u00edses desenvolvidos, tamb\u00e9m poderiam ser alcan\u00e7adas na produ\u00e7\u00e3o, no uso e descarte de autom\u00f3veis \u2013 em especial, por meio de caronas e compartilhamento de carros.<\/p>\n<p>Segundo Abramovay, 60% das emiss\u00f5es de carbono prov\u00eam da instala\u00e7\u00e3o e opera\u00e7\u00e3o de infraestrutura, e o mundo vai investir US$ 94 trilh\u00f5es no setor at\u00e9 2030, com alto impacto no or\u00e7amento clim\u00e1tico. Em 2021, cada tonelada de cimento \u00e9 produzida com emiss\u00f5es 18% menores do que tr\u00eas d\u00e9cadas antes, conforme trabalho do <a href=\"https:\/\/www.carbonbrief.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Carbon Brief<\/a>. Neste per\u00edodo, por\u00e9m, a demanda de cimento no mundo triplicou. E apesar dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos do setor, suas emiss\u00f5es continuam subindo.<\/p>\n<p>\u201cQual deve ser o n\u00edvel de mudan\u00e7a da minera\u00e7\u00e3o, siderurgia e produ\u00e7\u00e3o de cimento para dar suporte aos padr\u00f5es de consumo?\u201d, pergunta o analista, com o alerta de que \u201ca infraestrutura de hoje determina a mudan\u00e7a clim\u00e1tica do amanh\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>Em sua vis\u00e3o, o esfor\u00e7o clim\u00e1tico est\u00e1 muito longe do necess\u00e1rio, por mais que haja compromisso para aumento de efici\u00eancia no uso de materiais. \u201cN\u00e3o vemos atitudes disruptivas\u201d, aponta Abramovay. Ele observa sinais positivos neste sentido, como na mobilidade el\u00e9trica, que por sua vez depende de gera\u00e7\u00e3o descentralizada e minerais para baterias. De igual forma, buscam-se mudan\u00e7as na matriz de refrigera\u00e7\u00e3o e aquecimento. \u201cH\u00e1 empenho de governos e movimentos como o New Green Deal, mas \u00e9 dif\u00edcil uma transi\u00e7\u00e3o desse tamanho, em prazo t\u00e3o curto, entrar no horizonte de gest\u00e3o das empresas\u201d, ressalta o professor.<\/p>\n<p>\u201cA urg\u00eancia da mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o permite que o tema permane\u00e7a encarado como fator externo \u00e0 vida econ\u00f4mica, mas como cerne da gest\u00e3o p\u00fablica e privada. Se n\u00e3o formos capazes de fazer escolhas orientadas pelas mensagens que o IPCC est\u00e1 transmitindo, o resultado \u00e9 que simplesmente n\u00e3o haver\u00e1 futuro\u201d, analisa Abramovay, em recente <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/612027-ipcc-ja-nao-ha-mais-tempo-para-uma-ecologia-sutil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo<\/a>.<\/p>\n<p>Em cen\u00e1rio assustador, a queima de combust\u00edvel f\u00f3ssil \u00e9 a maior vil\u00e3: somente petr\u00f3leo e g\u00e1s correspondem a 42% de tudo que a economia global emite, e a l\u00f3gica colocaria a\u00ed as principais estrat\u00e9gias de mitiga\u00e7\u00e3o. Mas qual o esfor\u00e7o do setor para impedir a destrui\u00e7\u00e3o do sistema clim\u00e1tico? Praticamente zero, responde estudo da <a href=\"https:\/\/www.iea.org\/reports\/the-oil-and-gas-industry-in-energy-transitions\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ag\u00eancia Internacional de Energia<\/a> indicando que mais de 99% dos investimentos das empresas de petr\u00f3leo e g\u00e1s s\u00e3o feitos em fontes sujas que elas j\u00e1 oferecem no mercado, com tend\u00eancia de expandir produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Custos do n\u00e3o retorno<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com relat\u00f3rio da Oxfam, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica ter\u00e1 mais impacto na economia global do que a Covid-19. Nos pa\u00edses ricos, ser\u00e1 duas vezes maior, se os governos n\u00e3o frearem o aumento das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, com risco de perder 8,5% do Produto Interno Bruto (PIB) por ano, em m\u00e9dia, at\u00e9 2050 \u2013 algo equivalente a US$ 4,8 trilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Em paralelo, an\u00e1lise da consultoria global McKinsey em determinados pa\u00edses encontrou o potencial de impacto socioecon\u00f4mico de cerca de duas a 20 vezes at\u00e9 2050, em rela\u00e7\u00e3o aos n\u00edveis atuais. O estudo explica que os sistemas econ\u00f4micos e financeiros foram projetados e otimizados para um certo n\u00edvel de risco e que os perigos crescentes podem tornar esses sistemas vulner\u00e1veis, quando atingem limites sist\u00eamicos.<\/p>\n<p>As cadeias de suprimentos, por exemplo, s\u00e3o frequentemente projetadas para efici\u00eancia em vez de resili\u00eancia, concentrando a produ\u00e7\u00e3o em certos locais e mantendo baixos n\u00edveis de estoque, aponta a an\u00e1lise. A produ\u00e7\u00e3o de alimentos tamb\u00e9m est\u00e1 fortemente concentrada; apenas cinco regi\u00f5es do mundo respondem por cerca de 60% da produ\u00e7\u00e3o global de gr\u00e3os. Segundo os pesquisadores, os riscos clim\u00e1ticos podem, portanto, colapsar o sistema se os principais centros de produ\u00e7\u00e3o forem afetados.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os custos econ\u00f4micos de n\u00e3o agir ser\u00e3o maiores do que se imaginava, devido aos pontos de n\u00e3o retorno clim\u00e1ticos \u2013 quando as temperaturas superam limites cr\u00edticos, levando a impactos acelerados e irrevers\u00edveis. O alerta \u00e9 de estudo da London School of Economics, da University of Delaware e da New York University, indicando aumento de at\u00e9 25% do preju\u00edzo financeiro com os impactos, em compara\u00e7\u00e3o com proje\u00e7\u00f5es anteriores. Na Amaz\u00f4nia, o quadro levaria \u00e0 perda de um quarto da floresta tropical, o que alteraria drasticamente o regime de chuvas na Am\u00e9rica do Sul \u2013 e, principalmente, no Centro-Sul do Pa\u00eds, celeiro do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Em cen\u00e1rios menos conservadores, a pesquisa indica 10% de chance de os custos dobrarem, e as perdas ocorreriam em quase todos os lugares do mundo, incluindo estimativas sobre danos clim\u00e1ticos pela eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar em 180 pa\u00edses, degelo e altera\u00e7\u00f5es na circula\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica. De acordo com o estudo, oito pontos de inflex\u00e3o at\u00e9 hoje modelados na economia do clima afetam as temperaturas ou o n\u00edvel do mar de diversas maneiras.<\/p>\n<p>Um desastre relacionado ao clima ou \u00e0 \u00e1gua ocorreu todos os dias, em m\u00e9dia, nos \u00faltimos 50 anos, com perdas de US$ 202 milh\u00f5es di\u00e1rios, de acordo com novo relat\u00f3rio da Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial (OMM). O n\u00famero de ocorr\u00eancias aumentou cinco vezes em cinco d\u00e9cadas, devido a condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas extremas, e gra\u00e7as \u00e0 gest\u00e3o de alertas precoces as mortes diminu\u00edram quase tr\u00eas vezes. Segundo o <a href=\"https:\/\/library.wmo.int\/index.php?lvl=notice_display&amp;id=21930\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Atlas de Mortalidade e Perdas Econ\u00f4micas<\/em> da WMO<\/a>, entre 1970 e 2019 houve mais de 11 mil desastres, com pouco mais de 2 milh\u00f5es de mortes (91% dos pa\u00edses em desenvolvimento) e US$ 3,64 trilh\u00f5es em preju\u00edzos.<\/p>\n<p>Estudo realizado em 48 pa\u00edses em desenvolvimento indica que 25% dos danos advindos de desastres naturais ocorridos entre 2003 e 2013 reca\u00edram sobre a agropecu\u00e1ria, causando preju\u00edzos de US$ 70 bilh\u00f5es. Estima-se que 44% dessas perdas foram causadas por secas e 39% por enchentes.<\/p>\n<p>No Brasil, os danos causados pelo clima \u00e0 economia foram de R$ 168,2 bilh\u00f5es, entre 2010 e 2019, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Cerca de 46 milh\u00f5es de pessoas foram afetadas por chuvas intensas e alagamentos, com perdas de R$ 30,7 bilh\u00f5es. E as secas causaram impacto ainda maior: 212 milh\u00f5es de habitantes e estrago econ\u00f4mico de R$ 132,7 bilh\u00f5es. Na agricultura brasileira, an\u00e1lises da Embrapa evidenciam perda anual pr\u00f3xima de R$ 11 bilh\u00f5es (1% do PIB agr\u00edcola), devida a eventos extremos. E a tend\u00eancia \u00e9 de aumento, em fun\u00e7\u00e3o do baixo n\u00edvel de mitiga\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de carbono em n\u00edvel global.<\/p>\n<p><strong>Rea\u00e7\u00e3o t\u00edmida<\/strong><\/p>\n<p>Cresce o n\u00famero de investidores procurando empresas mais maduras na quest\u00e3o clim\u00e1tica, por\u00e9m sem o desapego dos investimentos em setores intensivos em carbono pela expectativa de retorno de curto prazo. Na vis\u00e3o de La\u00eds Cesar, gerente de mercado de capitais do CDP, organiza\u00e7\u00e3o que processa dados ambientais de empresas e governos na an\u00e1lise de risco para a decis\u00e3o de investimentos, \u201ca busca de informa\u00e7\u00f5es tem sido mais criteriosa, por\u00e9m em apenas 25% dos relatos que recebemos os investidores fazem an\u00e1lise das emiss\u00f5es financiadas\u201d.<\/p>\n<p>Isso significa que apenas uma pequena parte sabe ao certo quanto o seu capital contribui para o carbono das atividades produtivas apoiadas com finalidade de retorno financeiro. Essas emiss\u00f5es externas, incluindo as cadeias de fornecedores, s\u00e3o cerca de 700 vezes superiores ao impacto operacional interno das empresas, segundo estimativa da gerente.<\/p>\n<p>Segundo ela, a grande discuss\u00e3o do momento \u00e9 sobre qual \u00e9 a melhor estrat\u00e9gia: desinvestir na empresa intensiva em carbono ou atuar junto com ela para construir metas e reduzir emiss\u00f5es. \u201cSe houver um plano, com compromissos e perspectiva de maior valor agregado no futuro, a op\u00e7\u00e3o do investidor \u00e9 agir de forma mais pr\u00f3xima com a empresa\u201d, afirma. Em alguns casos, a interfer\u00eancia se d\u00e1 pelo engajamento corporativo, por meio do direito de voto nas assembleias, como no recente caso da petroleira Shell, em que os acionistas votaram contra novos investimentos intensivos em carbono e solicitaram um plano de transi\u00e7\u00e3o, conta.<\/p>\n<p>Setores como tabaco e armas, segundo ela, j\u00e1 est\u00e3o sendo retirados das carteiras por n\u00e3o terem perfil ESG, mesmo que apresentem plano de baixo carbono. No total, 49% das institui\u00e7\u00f5es financeiras que reportaram dados ao CDP e conhecem as emiss\u00f5es financiadas t\u00eam planos de reduzi-las \u2013 a exemplo da CalPERS, fundo de pens\u00e3o de funcion\u00e1rios p\u00fablicos da Calif\u00f3rnia (USA) que tem portf\u00f3lio de US$ 392,5 bilh\u00f5es, investe aproximadamente US$ 43,6 bilh\u00f5es em empresas e projetos da regi\u00e3o e elabora metas anuais para zerar emiss\u00f5es de carbono at\u00e9 2050.<\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, fundos de pens\u00e3o que caminham na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria e alimentam a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia em nome da aposentadoria de m\u00e9dicos e professores estrangeiros, como <a href=\"https:\/\/forestsandfinance.org\/pt\/news-pt\/investigation-dutch-japanese-pension-funds-pay-for-amazon-deforestation\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">neste levantamento<\/a> da Forests &amp; Finance.<\/p>\n<p>No Brasil, o barulho aumenta. \u201c\u00c9 como uma avalanche, e estamos no meio dela\u201d, compara Viviane Torinelli, pesquisadora da Universidade Federal da Bahia e integrante da Brasfi, rede de pesquisa em finan\u00e7as sustent\u00e1veis com 60 membros. Como um efeito-domin\u00f3, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica est\u00e1 associada \u00e0 crise h\u00eddrica, que por sua vez afeta a gera\u00e7\u00e3o de energia, a produ\u00e7\u00e3o de commodities agr\u00edcolas e a infla\u00e7\u00e3o, demonstrando as conex\u00f5es com o desenvolvimento econ\u00f4mico e os desafios sociais. \u201cA emerg\u00eancia da transi\u00e7\u00e3o tem chacoalhado a ind\u00fastria de \u00f3leo e g\u00e1s, com tend\u00eancia de desvaloriza\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es no mercado sob o risco de exposi\u00e7\u00e3o sist\u00eamica da economia a impactos clim\u00e1ticos\u201d, afirma Torinelli.<\/p>\n<p>Ela lembra que ag\u00eancias internacionais de <em>rating<\/em> come\u00e7am a adotar novas l\u00f3gicas de impacto econ\u00f4mico, levando em conta fatores como desmatamento, o que produz potenciais efeitos negativos para o valor de frigor\u00edficos brasileiros, com efeito cascata no mercado. De acordo com Torinelli, globalmente, o apelo ESG movimenta tamb\u00e9m a coopera\u00e7\u00e3o bilateral para acesso a cr\u00e9dito e mercados com diferencial competitivo, antecipando-se a exig\u00eancias regulat\u00f3rias com aumento de custos.<\/p>\n<p>Em sua an\u00e1lise, o ritmo mais r\u00e1pido vir\u00e1 principalmente de dois lados: da remunera\u00e7\u00e3o de executivos com olhar de futuro e n\u00e3o de resultados em cinco anos como no modelo tradicional de neg\u00f3cios; e do esfor\u00e7o regulat\u00f3rio sobre o fluxo de capital, com a defini\u00e7\u00e3o de como ser\u00e1 controlado e reportado (<em>leia mais <a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/2021\/09\/23\/o-xadrez-da-governanca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>nesta reportagem<\/strong><\/a> sobre governan\u00e7a<\/em>).<\/p>\n<p>\u201cOs bancos t\u00eam o desafio de enxergar diferente o que antes era feito apenas por <a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/2021\/09\/23\/dicionario-notas-videos-dicas-afins\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>compliance<\/em><\/a>, cultivando a percep\u00e7\u00e3o da relev\u00e2ncia do tema ambiental e social como <a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/2021\/09\/23\/dicionario-notas-videos-dicas-afins\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>materialidade <\/strong><\/a>financeira para a tomada de decis\u00f5es de m\u00e9dio prazo, quando j\u00e1 vemos os impactos acontecerem no curto prazo\u201d, aponta a pesquisadora.<\/p>\n<p>Embora em dimens\u00e3o desproporcional \u00e0 emerg\u00eancia clim\u00e1tica, as finan\u00e7as verdes deixam de ser um nicho e come\u00e7am a se tornar dominantes por tr\u00e1s da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica global. De acordo com o <a href=\"http:\/\/www.gsi-alliance.org\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/GSIR-20201.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Global Sustainable Review<\/a>, os ativos de investimentos sustent\u00e1veis subiram de US$ 22,8 trilh\u00f5es, em 2016, para US$ 30,6 trilh\u00f5es, em 2018. Em 2020, atingiram US$ 35,3 trilh\u00f5es, totalizando 35,9% do total de investimentos no mundo.<\/p>\n<p><strong>Or\u00e7amento apertado<\/strong><\/p>\n<p>O planeta conseguir\u00e1 gastar o que pode de carbono at\u00e9 2050? Com quais consequ\u00eancias? \u201cPrecisamos de uma curva exponencial de redu\u00e7\u00e3o, pelo menos para n\u00e3o superar o limite de seguran\u00e7a dos 2 graus de aumento, e quem n\u00e3o abra\u00e7ar o objetivo agora pode n\u00e3o alcan\u00e7ar depois, porque as tecnologias ser\u00e3o caras\u201d, destaca Johannes van de Ven, diretor-executivo da Good Energies, na Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n<p>Pelas suas contas, para o planeta ficar abaixo de 1,5 grau de aquecimento, o or\u00e7amento de carbono se esgotar\u00e1 em sete anos, caso os atuais n\u00edveis de emiss\u00e3o (40 bilh\u00f5es de toneladas ao ano) se mantenham. Diante do quadro, \u00e9 crescente a press\u00e3o internacional por uma virada de chave: tr\u00eas quartos da popula\u00e7\u00e3o mundial defendem maior poder da ONU para acelerar a mitiga\u00e7\u00e3o, com a instala\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de Conselho de Seguran\u00e7a Clim\u00e1tica. Al\u00e9m disso, monitorar riscos clim\u00e1ticos \u00e9 uma agenda j\u00e1 permanente em mercados como o europeu, e as consequ\u00eancias recaem nas empresas globais.<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o Europeia, por exemplo, prop\u00f5e implantar o <a href=\"https:\/\/ec.europa.eu\/commission\/presscorner\/detail\/en\/qanda_21_3661\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Carbon Border Adjustment Mechanism<\/a>: a taxa que penalizar\u00e1 quem importar carbono embutido em produtos oriundos de pa\u00edses com regras ambientais frouxas \u2013 a come\u00e7ar pelo ferro e a\u00e7o, cimento, fertilizante, alum\u00ednio e gera\u00e7\u00e3o da eletricidade. Projetada em conformidade com as regras da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC), a medida \u00e9 vista como estrat\u00e9gica para a Europa atingir a meta de reduzir 55% das emiss\u00f5es, compar\u00e1veis a 1990, e tornar-se um continente neutro para o clima at\u00e9 2050. Outras regi\u00f5es, como o estado da Calif\u00f3rnia (EUA), Canad\u00e1 e Jap\u00e3o, planejam iniciativas semelhantes.<\/p>\n<p>Segundo Ven, no ferrolho das regula\u00e7\u00f5es que est\u00e3o por vir globalmente existe o debate no sentido de que os <em>reports<\/em> de sustentabilidade se tornem obrigat\u00f3rios, como ocorre no mundo da contabilidade financeira, apresentando desempenho ambiental e balan\u00e7o de metas clim\u00e1ticas audit\u00e1veis, baseadas em padr\u00f5es \u00fanicos globais.<\/p>\n<p>Mais de 1,7 mil empresas j\u00e1 aderiram ao sistema da Science Based Targets initiative (<a href=\"https:\/\/sciencebasedtargets.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SBTi<\/a>), em que submetem metas clim\u00e1ticas \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o e aprova\u00e7\u00e3o, para alinhamento ao Acordo de Paris, no horizonte das emiss\u00f5es l\u00edquidas zero. E agora, de acordo com Ven, pa\u00edses europeus cogitam exigir o selo como condi\u00e7\u00e3o para empresas constarem nos \u00edndices das bolsas de valores.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1, ainda, a tend\u00eancia de o modelo ser aplicado tamb\u00e9m no tema da biodiversidade, do uso da terra e de recursos h\u00eddricos, o que seria muito importante para o Brasil monetizar a floresta como sumidouro de carbono, com maior suporte e seguran\u00e7a para investimentos\u201d, aponta o analista.<\/p>\n<p>Segundo ele, o desafio imposto \u00e0 fonte solar h\u00e1 20 anos se repete agora, por exemplo, com o carbono florestal: \u201cum ativo valioso que est\u00e1 inspirando a estrutura\u00e7\u00e3o de fundos verdes nos v\u00e1rios continentes\u201d, na l\u00f3gica de reduzir gases estufa e, tamb\u00e9m, remov\u00ea-los da atmosfera, conservando floresta e recuperando ambientes degradados.<\/p>\n<p>Ele enfatiza que, \u201cpara o imagin\u00e1rio do mundo, a Amaz\u00f4nia \u00e9 muito mais que Brasil\u201d, e assim deve ser remunerada. \u201cUm hectare de floresta prim\u00e1ria valer\u00e1 mais do que a mesma \u00e1rea de soja para alimentar porcos na China\u201d, prev\u00ea.<\/p>\n<p><strong>Riscos para seguradoras<\/strong><\/p>\n<p>\u201cESG \u00e9 um sinal, n\u00e3o um barulho: pelo bem ou pelo mal, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica j\u00e1 mexe com pre\u00e7os de mercadorias e ativos; as regula\u00e7\u00f5es de governos seguem acelerando e o mercado financeiro se movimenta para n\u00e3o ficar com ativos sem valor na m\u00e3o\u201d, analisa Ven. Diante dos riscos clim\u00e1ticos, os pre\u00e7os das ap\u00f3lices de seguro est\u00e3o cada vez mais altos, e a tend\u00eancia \u00e9 excluir dos portf\u00f3lios atividades intensivas em carbono. \u201cDas perdas de US$ 82 bilh\u00f5es com inunda\u00e7\u00f5es em 2019 no mundo, apenas US$ 13 bilh\u00f5es estavam segurados\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Os mercados financeiros podem antecipar o reconhecimento de risco nas regi\u00f5es afetadas, com influ\u00eancia na realoca\u00e7\u00e3o de capital. A multinacional SwissRe estima aumento de 30% de sinistros para as resseguradoras. Como forma de conscientizar agentes e influenciar clientes a reduzir risco clim\u00e1tico, a companhia colocou o carbono no custo das opera\u00e7\u00f5es internas, no valor inicial de US$ 100 por tonelada de CO<sub>2<\/sub> para cada funcion\u00e1rio. \u201cN\u00e3o basta comprar ap\u00f3lice contra desastres; \u00e9 preciso reduzir emiss\u00f5es e regenerar o planeta\u201d, adverte Ven. No Brasil, a Superintend\u00eancia de Seguros Privados (Susep) prev\u00ea crit\u00e9rios socioambientais no <a href=\"https:\/\/www2.susep.gov.br\/safe\/scripts\/bnweb\/bnmapi.exe?router=upload\/24063\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">plano de regula\u00e7\u00e3o<\/a> de 2021.<\/p>\n<p>Caso as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa sigam em eleva\u00e7\u00e3o nas atuais taxas, a temperatura do planeta poder\u00e1 aumentar 5,4 graus at\u00e9 2100, e ningu\u00e9m estar\u00e1 imune aos graves impactos econ\u00f4micos e sociais, segundo o IPCC. \u201cO susto ser\u00e1 nosso caminho: estamos aprendendo sobre mudan\u00e7a clim\u00e1tica j\u00e1 olhando para as cat\u00e1strofes\u201d, lamenta Celso Lemme, professor da Coppead, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. \u201c\u00c9 urgente come\u00e7ar de alguma forma e ir ajustando; o que n\u00e3o podemos \u00e9 nos acomodar na in\u00e9rcia\u201d, afirma.<\/p>\n<p>No cen\u00e1rio em que o desembarque de capital para o baixo carbono tem sido muito inferior ao necess\u00e1rio, \u201ca boa not\u00edcia \u00e9 que h\u00e1 muito espa\u00e7o de oportunidades para evoluir\u201d. Para Lemme, falta consci\u00eancia da emerg\u00eancia e o ESG ainda se apresenta muito modesto como estrat\u00e9gia de investimento, no Brasil. Mas h\u00e1 sinais de avan\u00e7os no mercado financeiro, como o an\u00fancio da nova linha de cr\u00e9dito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES), no total de R$ 1 bilh\u00e3o. O valor se destina ao fomento de empresas que se comprometam a melhorar indicadores de sustentabilidade nos setores de reflorestamento, equipamentos para a cadeia de energia renov\u00e1vel e efici\u00eancia energ\u00e9tica, minera\u00e7\u00e3o e siderurgia, com redu\u00e7\u00e3o de juros.<\/p>\n<p>\u201cA iniciativa poder\u00e1 ter efeito indutor para disseminar pr\u00e1ticas em segmentos estrat\u00e9gicos da economia\u201d, prev\u00ea Lemme. No entanto, ele ressalva: \u201cCriar o instrumento \u00e9 um ponto; operacionaliz\u00e1-lo, \u00e9 outro\u201d. A reportagem da <strong>P\u00e1gina22<\/strong> procurou o banco para saber as metas, as expectativas de resultados e o potencial de mudan\u00e7as no fluxo de capital ainda revertido para setores intensivos em carbono, mas n\u00e3o obteve resposta.<\/p>\n<p><strong>Crescimento na Bolsa de Valores<\/strong><\/p>\n<p>Em setembro, o BNDES obteve <em>rating<\/em> ESG entre os 2% das companhias mais bem avaliadas pela ag\u00eancia Vigeo Eiris, controlada pela Moody\u2019s. No entanto, a an\u00e1lise sugeriu melhorias, ao ressaltar que o banco n\u00e3o monitora as emiss\u00f5es de carbono da sua carteira de cr\u00e9dito, al\u00e9m de n\u00e3o ter indicadores de performance e metas socioambientais.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de Lemme, o atual momento n\u00e3o \u00e9 de apenas buscar caminhos, mas fomentar, melhorar as escolhas. \u201cAntes, as quest\u00f5es ambientais eram vistas como fatores que desviavam o foco financeiro, no conceito do dever fiduci\u00e1rio, alinhado aos princ\u00edpios dos donos do capital. Mas agora h\u00e1 uma nova l\u00f3gica que influencia regula\u00e7\u00e3o e comportamento do mercado e dos pre\u00e7os\u201d, explica o pesquisador.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, o mercado de <em>green bonds <\/em>est\u00e1 superaquecido. Em 2015, havia apenas um t\u00edtulo verde rotulado no Brasil, no valor de US$ 549 milh\u00f5es. Em 2021, s\u00e3o 73 opera\u00e7\u00f5es, no total de US$ 11 bilh\u00f5es, e o que come\u00e7ou no setor de energias renov\u00e1veis, agora abrange projetos no agroneg\u00f3cio e florestas. A reboque replicam variantes como o <em>sustainability-linked bond,<\/em> com uso do capital vinculado a metas de desempenho na \u00e1rea ambiental, social e de governan\u00e7a. J\u00e1 os <a href=\"https:\/\/www.investopedia.com\/articles\/investing\/012815\/how-diaspora-bonds-work.asp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>diaspora bonds<\/em><\/a> permitem pa\u00edses em desenvolvimento obterem ajuda de expatriados em na\u00e7\u00f5es ricas.<\/p>\n<p>Cresce a percep\u00e7\u00e3o sobre conex\u00f5es entre sustentabilidade e produtividade, perenidade do neg\u00f3cio e ganho de imagem, com reflexo na remunera\u00e7\u00e3o de capital. Em 2020, foram criados 85 fundos rotulados como sustent\u00e1veis no Brasil, contra apenas seis no ano anterior, segundo a Morningstar. Segundo dados divulgados recentemente por Fabio Zenaro, diretor de novos neg\u00f3cios da B3, no Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira do Agroneg\u00f3cio, existem 39 empresas no \u00cdndice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), em reformula\u00e7\u00e3o para adotar novos crit\u00e9rios. Al\u00e9m disso, h\u00e1 62 a\u00e7\u00f5es de 58 companhias no \u00cdndice de Carbono Eficiente (ICO2), sem falar de 24 deb\u00eantures e outros t\u00edtulos ligados ao tema.<\/p>\n<p>No entanto, analistas identificam universos paralelos entre atores que promovem investimentos verdes, com desencontro de vis\u00f5es sobre o que poderia ser considerado <em>green<\/em>. \u00c9 o caso do pol\u00eamico projeto da Ferrogr\u00e3o, defendido pelas empresas do agro e contemplado pela Climate Bonds Initiative como um potencial emissor de t\u00edtulos verdes, mas que est\u00e1 sendo questionado pelo Tribunal de Contas da Uni\u00e3o, e tamb\u00e9m no Supremo Tribunal Federal, com diversas manifesta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias apresentadas pela academia, por advogados, organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e pelo movimento ind\u00edgena.<\/p>\n<p><strong>Precifica\u00e7\u00e3o do carbono<\/strong><\/p>\n<p>Colocar pre\u00e7o no carbono \u00e9 uma forma de incentivo \u00e0 mitiga\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o para quem n\u00e3o se mexe. Existem 61 iniciativas globais de regula\u00e7\u00e3o neste sentido, cobrindo 22% das emiss\u00f5es globais, conforme <a href=\"https:\/\/openknowledge.worldbank.org\/bitstream\/handle\/10986\/33809\/9781464815867.pdf?sequence=4&amp;isAllowed=y\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">levantamento<\/a> internacional. Apesar da evolu\u00e7\u00e3o l\u00e1 fora e das tratativas entre setor privado e governo federal, o Brasil tem caminhado devagar na discuss\u00e3o do marco regulat\u00f3rio de carbono, com expectativa de aprova\u00e7\u00e3o no Congresso Nacional antes da COP 26, a ser realizada no come\u00e7o de novembro, ap\u00f3s a busca de consenso entre ind\u00fastria pesada e setores mais progressistas.<\/p>\n<p>Neste ano, o Brasil foi exclu\u00eddo do Program for Market Implementation, do Banco Mundial, pela falta de avan\u00e7os consistentes no tema. Desta forma, o Pa\u00eds n\u00e3o ter\u00e1 coopera\u00e7\u00e3o para desenhar a pol\u00edtica de regula\u00e7\u00e3o, ficando atr\u00e1s de Col\u00f4mbia, M\u00e9xico e Chile. \u201cN\u00e3o basta um governo dizer que \u00e9 pr\u00f3-mercado de carbono ou outros gen\u00e9ricos. Precisa mostrar interesse, disposi\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o verdadeira quanto a regular emiss\u00f5es em sistema de pre\u00e7os\u201d, afirma Natalie Unterstell, presidente do Talanoa \u2013 Instituto Internacional de Pol\u00edticas P\u00fablicas. \u201cN\u00e3o temos pol\u00edtica p\u00fablica para a quest\u00e3o clim\u00e1tica; o \u00fanico que existe \u00e9 um declarado apoio ao mercado volunt\u00e1rio de carbono, que n\u00e3o resolve o problema, e nem \u00e9 tema da COP 26\u201d, completa.<\/p>\n<p>Unterstell lembra que o governo brasileiro est\u00e1 dedicado a criar um enorme estande na confer\u00eancia do clima como sinal de comprometimento, mas de objetivo levar\u00e1 um plano de implementa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria brasileira, embora conter o desmatamento seja o cerne dos compromissos nacionais [a Intended Nationally Determined Contributions (INDC)] no Acordo de Paris. \u201cA pol\u00edtica clim\u00e1tica est\u00e1 restrita a um pavilh\u00e3o de exposi\u00e7\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n<p>Segundo ela, a For\u00e7a-Tarefa sobre Divulga\u00e7\u00f5es Financeiras Relacionadas ao Clima (<a href=\"https:\/\/www.fsb-tcfd.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">TCFD<\/a>), criada pelo Conselho de Estabilidade Financeira Internacional, tem pedido a descarboniza\u00e7\u00e3o real da economia. \u201cEstamos atrasados e o mercado financeiro n\u00e3o \u00e9 capaz de agir sozinho sem pol\u00edticas p\u00fablicas contra a grilagem e o desmate\u201d, enfatiza Unterstell. Ela lembra o combo de projetos legislativos que est\u00e3o para ser votados com mais retrocessos no Congresso Nacional: \u201cEstamos no limiar de pactuar de vez com a continuidade dos problemas e ser\u00e1 dif\u00edcil reverter l\u00e1 na frente\u201d.<\/p>\n<p>Gustavo Pimentel, diretor da Sitawi, concorda: \u201cO que falta neste momento \u00e9 senso de urg\u00eancia aos tomadores de decis\u00e3o no \u00e2mbito pol\u00edtico; a toler\u00e2ncia do setor privado e da sociedade civil ao n\u00e3o posicionamento diminuiu\u201d. Em recente semin\u00e1rio sobre o tema, ele refor\u00e7a que a linha dessa rela\u00e7\u00e3o historicamente conservadora mudou e que todos precisam se adaptar porque h\u00e1 press\u00e3o por todo lado. \u201cPrecisamos falar mais em como votar, porque a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 algo menor para construir o mundo que a gente quer\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Para Leonardo Letelier, fundador e CEO da organiza\u00e7\u00e3o, o setor privado pode e deve fazer muito, por\u00e9m precisa ser mais verdadeiro. \u201cN\u00e3o adianta mudar a tipografia da fonte para verde e j\u00e1 se dizer que \u00e9 sustent\u00e1vel\u201d, diz. Ele pergunta se apenas o investimento de capital com expectativa de retorno trar\u00e1 os benef\u00edcios ambientais e sociais necess\u00e1rios: \u201cO ESG vai mudar o mundo? Sairemos do nicho ou criaremos uma bolha de expectativas?\u201d.<\/p>\n<p><strong>Biodiversidade na agenda<\/strong><\/p>\n<p>Na interface com o clima, a biodiversidade \u00e9 ponto de aten\u00e7\u00e3o na agenda brasileira de ESG. De acordo com o WWF, o planeta est\u00e1 perdendo esp\u00e9cies entre 1 mil e 10 mil vezes acima da taxa de extin\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n<p>O problema coloca em xeque n\u00e3o s\u00f3 o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico e a qualidade de vida, mas o patrim\u00f4nio gen\u00e9tico e a disponibilidade de recursos naturais e mat\u00e9rias-primas aos setores econ\u00f4micos, com reflexos nos resultados financeiros. Estudo do F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial aponta que o mundo investe 10 vezes menos do que o necess\u00e1rio para compensar impactos e recuperar minimamente o planeta. As solu\u00e7\u00f5es, com efeitos paralelos no abrandamento da crise clim\u00e1tica, custariam 0,13% do PIB global \u2013 em tr\u00eas d\u00e9cadas, seriam US$ 8,1 trilh\u00f5es \u00e0 agricultura regenerativa, \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o de florestas, ao controle da polui\u00e7\u00e3o e \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o de \u00e1reas protegidas. Para analistas, os recursos viriam do capital hoje empregado no uso insustent\u00e1vel do planeta, mas esse deslocamento n\u00e3o \u00e9 simples.<\/p>\n<p>A For\u00e7a-Tarefa sobre Divulga\u00e7\u00f5es Financeiras Associadas \u00e0 Biodiversidade est\u00e1 construindo as bases para os relatos desses riscos at\u00e9 2023, permitindo que institui\u00e7\u00f5es financeiras e empresas gerenciem impactos das carteiras para mudan\u00e7as no fluxo de capital, com resultados positivos para a natureza. No Brasil, gestores de fundos e organiza\u00e7\u00f5es como o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (Cebds) e a Federa\u00e7\u00e3o Brasileira de Bancos (Febraban) est\u00e3o engajados na agenda, voltada a entender a correla\u00e7\u00e3o de riscos entre biodiversidade e opera\u00e7\u00f5es de setores como agr\u00edcola, de minera\u00e7\u00e3o e de papel e celulose.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio pol\u00edtico no Pa\u00eds eleva a r\u00e9gua do problema, porque o mercado financeiro fica ref\u00e9m da falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental. H\u00e1 baixa transpar\u00eancia e faltam bases de dados p\u00fablicos nos estados. O desmatamento na Amaz\u00f4nia cresceu 57% entre agosto de 2020 e julho de 2021. Foram 10,4 mil quil\u00f4metros quadrados, territ\u00f3rio seis vezes maior do que a cidade de S\u00e3o Paulo. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), neste ano, at\u00e9 13 de setembro, ocorreram mais de 107 mil focos de <a href=\"https:\/\/queimadas.dgi.inpe.br\/queimadas\/portal-static\/situacao-atual\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">queimadas<\/a> no Pa\u00eds, quase metade no bioma amaz\u00f4nico, que pode estar \u00e0 beira da destrui\u00e7\u00e3o funcional, conforme recorrentes alertas da ci\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Vil\u00f5es brasileiros<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto no mundo o consumo de energia (transporte, eletricidade e gera\u00e7\u00e3o de calor) \u00e9 de longe a maior fonte de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, respons\u00e1vel por 73% do total, no Brasil o principal fator est\u00e1 na mudan\u00e7a de uso da terra e florestas, com 44% do que \u00e9 emitido no Pa\u00eds \u2013 o que sinaliza o caminho das prioridades na agenda ESG, passando necessariamente pela Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 necessidade urgente de um novo modelo econ\u00f4mico, combinando conhecimento tradicional ao cient\u00edfico, com restaura\u00e7\u00e3o de floresta e remo\u00e7\u00e3o de carbono, em benef\u00edcio das popula\u00e7\u00f5es locais\u201d, afirma o climatologista Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da USP. \u201cPara salvar a Amaz\u00f4nia, precisamos em curt\u00edssimo prazo zerar o desmatamento, que j\u00e1 atingiu 1 milh\u00e3o de quil\u00f4metros quadrados, e a degrada\u00e7\u00e3o, em curt\u00edssimo prazo\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p>Em quase 50% da Bacia Amaz\u00f4nica, os per\u00edodos de secas est\u00e3o mais longos, e recentes estudos cient\u00edficos apontam que, em algumas \u00e1reas, a floresta est\u00e1 passando de sumidouro para emissora de carbono. \u201cPodemos estar muito pr\u00f3ximos do ponto irrevers\u00edvel\u201d, diz o cientista.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/imazon.org.br\/imprensa\/publicacao-fatos-da-amazonia-2021-mostra-radiografia-atualizada-da-regiao-veja-os-principais-dados\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pesquisas<\/a> indicam que o desmatamento n\u00e3o traz aumento de renda. Ao contr\u00e1rio, destr\u00f3i o patrim\u00f4nio essencial ao desenvolvimento de uma bioeconomia e alimenta atividades ilegais e impactos sociais, ligados ao crime organizado. Entre agosto de 2018 e julho de 2019, 38% da explora\u00e7\u00e3o madeireira no Par\u00e1 n\u00e3o foi autorizada. Al\u00e9m disso, os garimpos \u2013 e seus impactos socioambientais \u2013 j\u00e1 representam quase dois ter\u00e7os das atividades de minera\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia, segundo estudo do MapBiomas. <a href=\"https:\/\/www.escolhas.org\/wp-content\/uploads\/Brasil-Exporta-Ouro-Ilegal.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Estudo do Instituto Escolhas<\/a> lan\u00e7ado em agosto mostra que, em 2020, o Brasil exportou 111 toneladas de ouro, 19 delas sem registro de origem ou autoriza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Impactos no agroneg\u00f3cio<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil, as \u00e1reas agr\u00edcolas cresceram tr\u00eas vezes entre 1985 e 2020. As de pastagem, 39%. No mesmo per\u00edodo, o Pa\u00eds perdeu 82 milh\u00f5es de vegeta\u00e7\u00e3o nativa, igual a 3,5 vezes o tamanho do estado de S\u00e3o Paulo. E os efeitos na mudan\u00e7a clim\u00e1tica chegaram a n\u00edveis cr\u00edticos. \u201cDesde 2016 as emiss\u00f5es brasileiras triplicaram e nada aconteceu para resolver, apesar dos relat\u00f3rios do IPCC. O tempo est\u00e1 ficando cada vez mais curto e \u00e9 inacredit\u00e1vel em 2021 existirem c\u00e9ticos divulgando fal\u00e1cias. O Pa\u00eds est\u00e1 vulner\u00e1vel e n\u00e3o somos ouvidos\u201d, ressalta Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa que acompanha as modelagens de impactos clim\u00e1ticos na agropecu\u00e1ria desde 2004.<\/p>\n<p>J\u00e1 ocorrem mudan\u00e7as na distribui\u00e7\u00e3o de temperatura e chuvas: \u201cSetores produtivos como o de caf\u00e9 e laranja est\u00e3o muito preocupados e buscando solu\u00e7\u00f5es\u201d, revela Assad, em recente debate na Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas. No veranico de 2018-2019, as perdas na soja foram de R$ 15 bilh\u00f5es no Paran\u00e1 e Rio Grande do Sul. No atual momento, em 2021, devido a fatores clim\u00e1ticos, a produtividade do milho caiu 25,7%.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de emitir gases de efeito estufa, a agropecu\u00e1ria \u00e9 altamente sens\u00edvel \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica, o que exige n\u00e3o s\u00f3 estancar o desmatamento, como implantar novos cultivares, genes e sistemas produtivos, como a Integra\u00e7\u00e3o Lavoura, Pecu\u00e1ria e Floresta (ILPF), para amenizar danos e suprir a demanda de mat\u00e9rias-primas e alimentos no mundo. Uma estrat\u00e9gia \u00e9 intensificar a produ\u00e7\u00e3o por meio da restaura\u00e7\u00e3o de 15 milh\u00f5es de hectares de pastagens degradadas e pelo incremento de 5 milh\u00f5es de hectares de sistemas de ILPF ate\u0301 2030, em linha com o <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/agricultura\/pt-br\/assuntos\/sustentabilidade\/plano-abc\/plano-abc-agricultura-de-baixa-emissao-de-carbono\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Plano ABC<\/a> (Agricultura de Baixa Emiss\u00e3o de Carbono).<\/p>\n<p>No agroneg\u00f3cio, respons\u00e1vel por 25% do PIB brasileiro, h\u00e1 tamb\u00e9m o desafio de maior rastreabilidade das cadeias produtivas, em especial da carne, inclusive como crit\u00e9rio para libera\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito pelos bancos que buscam metas ESG em suas carteiras (<em>leia mais em &#8220;Plano Amaz\u00f4nia, um ano depois&#8221;, a seguir<\/em>).<\/p>\n<p><strong>Siderurgia em xeque<\/strong><\/p>\n<p>Devido ao desmatamento, o \u201crisco Brasil\u201d mancha a imagem de setores econ\u00f4micos com potencial preju\u00edzo no com\u00e9rcio internacional, em especial das <a href=\"http:\/\/www.centroclima.coppe.ufrj.br\/images\/documentos\/ies-brasil-2050\/4_-_Cenario_de_Emiss%C3%B5es_de_GEE_-_Setor_Industrial_Demanda_de_Energia_e_Emissoes_de_Processos_Industriais_-_IES_Brasil_2050.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">principais ind\u00fastrias<\/a> emissoras de gases estufa: mineral, cimento, a\u00e7o e papel e celulose, que alega capturar carbono pelas \u00e1rvores e reivindica benef\u00edcios por isso.<\/p>\n<p>A siderurgia figura entre as atividades que mais precisam reduzir pegada clim\u00e1tica: cada tonelada de a\u00e7o produzida em 2018 emitiu em m\u00e9dia 1,85 toneladas de di\u00f3xido de carbono, o que equivale a cerca de 8% das emiss\u00f5es globais. Na incapacidade de reduzi-las, as empresas do setor podem perder 14% do valor, segundo an\u00e1lise da McKinsey. O risco levou uma rede global com mais de 250 investidores e US$ 30 trilh\u00f5es em ativos sob gest\u00e3o a olhar com maior aten\u00e7\u00e3o para o que faz a ind\u00fastria sider\u00fargica em face da mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Globalmente, o setor est\u00e1 longe de cortar 91% nas emiss\u00f5es at\u00e9 2050 para atingir o <em>net zero<\/em>, conforme prev\u00ea a AIE. No Brasil, o <a href=\"https:\/\/static.portaldaindustria.com.br\/media\/filer_public\/04\/a2\/04a2a7ac-4a9f-4505-84a5-f4c54242ead7\/aco_brasil.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a\u00e7o<\/a> \u2013 altamente dependente do carv\u00e3o mineral \u2013 representa a maior emiss\u00e3o de gases de efeito estufa do segmento industrial, com 43% do total, acima do cimento (20%). S\u00e3o 61 milh\u00f5es de toneladas de carbono por ano, inferiores \u00e0 m\u00e9dia global, havendo pouco espa\u00e7o tecnol\u00f3gico para maior redu\u00e7\u00e3o, segundo an\u00e1lise do Instituto A\u00e7o Brasil, que iniciou a busca de solu\u00e7\u00f5es e a estrutura\u00e7\u00e3o de governan\u00e7a clim\u00e1tica. Substitui\u00e7\u00e3o de fontes f\u00f3sseis, uso de res\u00edduos e efici\u00eancia energ\u00e9tica s\u00e3o caminhos \u00e0s vezes dificultados pela falta de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Uma rara iniciativa, o Programa para Uso Sustent\u00e1vel do Carv\u00e3o Mineral Nacional, anunciado neste ano pelo governo federal, causou pol\u00eamica. Um manifesto assinado por nove ONGs brasileiras criticou o plano de ir na contram\u00e3o da ci\u00eancia e dos esfor\u00e7os globais em favor da redu\u00e7\u00e3o do uso dos combust\u00edveis f\u00f3sseis. E classificou o dito \u201ccarv\u00e3o mineral sustent\u00e1vel\u201d como \u201ca nova cloroquina do setor el\u00e9trico\u201d, destinada a perpetuar-se na matriz energ\u00e9tica de modo antiecon\u00f4mico, com impactos sociais aos trabalhadores.<\/p>\n<p><strong>Tecnologias para prevenir<\/strong><\/p>\n<p>Nas atividades econ\u00f4micas associadas \u00e0s mudan\u00e7as do uso da terra, h\u00e1 o desafio de tropicaliza\u00e7\u00e3o de m\u00e9tricas para suporte a a\u00e7\u00f5es de governo e an\u00e1lise de riscos ESG por empresas e mercado financeiro, no contexto da realidade brasileira. Na transforma\u00e7\u00e3o digital, a intelig\u00eancia artificial integrada a imagens de sat\u00e9lite escancarou os impactos \u00e0 natureza, sem que hoje seja poss\u00edvel escond\u00ea-los. E agora uma novidade chega aos sistemas que monitoram a Amaz\u00f4nia: a PrevisIA, plataforma de dados que tem o diferencial de n\u00e3o olhar apenas para tr\u00e1s, mas de prever riscos futuros de desmatamento, no horizonte de 12 meses.<\/p>\n<p>\u201cO pulo do gato \u00e9 entender o que poder\u00e1 acontecer no curto prazo, em fun\u00e7\u00e3o de diversas vari\u00e1veis, como PIB, popula\u00e7\u00e3o, uso da terra, dist\u00e2ncia para estradas e exist\u00eancia de \u00e1reas protegidas\u201d, explica Carlos Souza, pesquisador do Imazon.<\/p>\n<p>A vantagem do novo paradigma \u00e9 prevenir o desmatamento antes que ocorra, de modo a agir antecipadamente no controle e planejar investimentos privados sem riscos de financiar a destrui\u00e7\u00e3o. \u201cAo evitar a derrubada de floresta, o sistema d\u00e1 seguran\u00e7a a opera\u00e7\u00f5es com cr\u00e9dito de carbono, gerando recursos para a regi\u00e3o\u201d, acrescenta Souza. Em 2020, o mercado volunt\u00e1rio de carbono movimentou globalmente US$ 600 milh\u00f5es, com previs\u00e3o de crescer 30% neste ano, no rastro das press\u00f5es por neutraliza\u00e7\u00e3o de gases de efeito estufa.<\/p>\n<p>Com cerca de R$ 1 milh\u00e3o do Fundo Vale, Microsoft e outros parceiros, a plataforma est\u00e1 sendo testada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Par\u00e1, na regi\u00e3o de Altamira (PA), com planos de aplica\u00e7\u00e3o visando a efici\u00eancia de embargos e o suporte de compromissos empresariais <em>net zero<\/em>, como na cadeia da pecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 poss\u00edvel identificar zonas livres de desmatamento e saber onde comprar sem favorecer impactos\u201d, observa o pesquisador, na esperan\u00e7a de que um dia os laudos t\u00e9cnicos para controle ambiental sejam emitidos automaticamente, com rapidez e seguran\u00e7a, igual como nas multas de tr\u00e2nsito. \u201cJ\u00e1 estamos tecnicamente prontos\u201d, diz Souza.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o do pesquisador, a maior frequ\u00eancia e intensidade de crises devido \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica obrigar\u00e1 a predi\u00e7\u00e3o de riscos, com transpar\u00eancia e efetividade, para saber onde se deve colocar o dinheiro, inclusive como forma de incentivo para quem faz o certo, por meio de iniciativas como o Pagamento por Servi\u00e7os Ambientais, que recompensa a manuten\u00e7\u00e3o de floresta para oferta de \u00e1gua. \u201cO que vai acordar o Brasil pode n\u00e3o ser a mudan\u00e7a do clima, mas a crise h\u00eddrica e seus preju\u00edzos financeiros imediatos\u201d, prev\u00ea o pesquisador.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um momento importante na agenda de investimentos, agora liderada por quem era patinho feio da sala, redirecionando recursos para tem\u00e1ticas importantes para a humanidade\u201d, ilustra Gilberto Ribeiro, s\u00f3cio da Vox Capital. No entanto, argumenta ele, \u201csem uma reforma ampla no modelo econ\u00f4mico, n\u00e3o iremos para frente\u201d.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o ambiental, centrada na crise clim\u00e1tica, junta-se ao desafio da desigualdade com a concentra\u00e7\u00e3o de renda. \u201cA pandemia foi um choque de realidade para entender que o mundo est\u00e1 mais conectado do que ach\u00e1vamos e o senso de urg\u00eancia do clima deve ser o mesmo, apesar do negacionismo que tangencia ambos\u201d, analisa Ribeiro (<em>leia mais <strong>nesta reportagem<\/strong> sobre o aspecto social<\/em>). Com uma advert\u00eancia: a demanda, segundo ele, abre oportunidades para oferta de solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis que n\u00e3o resolvem e n\u00e3o podemos legitimar quem quer salvar o planeta no aspecto ambiental com um dedo e com outro quer lucrar no esteio dos problemas de sa\u00fade e outras mazelas da humanidade.<\/p>\n<p>\u201cInvestir em ESG n\u00e3o \u00e9 uma m\u00e9trica, mas um modelo mental por tr\u00e1s de gerenciar o neg\u00f3cio\u201d, enfatiza Ribeiro, ao lembrar que poss\u00edveis incoer\u00eancias n\u00e3o tiram o m\u00e9rito da pauta. \u201cA beleza est\u00e1 nesse di\u00e1logo\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Em sua an\u00e1lise, h\u00e1 espa\u00e7o para reforma, ainda que n\u00e3o seja uma revolu\u00e7\u00e3o, mas o desafio \u00e9 n\u00e3o repetir o <em>playback<\/em> antigo dos investimentos. \u201cA mudan\u00e7a vir\u00e1 por meio de um dos tr\u00eas \u2018C\u2019: comunica\u00e7\u00e3o, conveni\u00eancia ou coer\u00e7\u00e3o\u201d, aponta. Ribeiro faz dele a recorrente fala do s\u00f3cio, Daniel Izzo, sobre o \u201cpragmatismo ut\u00f3pico\u201d do escritor uruguaio Eduardo Galeano, em que a utopia est\u00e1 na linha do horizonte para fazer a gente caminhar. \u201cN\u00e3o d\u00e1 para acabar com o petr\u00f3leo agora, mas as finan\u00e7as achar\u00e3o a melhor governan\u00e7a no caminho do meio\u201d, estima.<\/p>\n<p>Ele aposta na for\u00e7a das institui\u00e7\u00f5es reguladoras, como a Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios (CVM) e o Banco Central. E resgata o pensamento ortodoxo do economista turco-americano Daron Acemo\u011flu, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA, autor de <em>Por que as Na\u00e7\u00f5es Fracassam<\/em> \u2013 influente livro sobre o papel que as institui\u00e7\u00f5es desempenham na forma\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds. Posteriormente, na obra <em>O Corredor Estreito<\/em>, o ortodoxo professor rendeu-se \u00e0 for\u00e7a da liberdade individual como fruto da intera\u00e7\u00e3o do poder do Estado com a mobiliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o em reivindicar pautas. Ribeiro conclui: \u201cA agenda do desenvolvimento sustent\u00e1vel vir\u00e1 de algum corredor estreito entre quem det\u00e9m o capital e a sociedade civil atuante\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Brasil de conta-gotas <\/strong>\u2013 fatores e consequ\u00eancias da crise h\u00eddrica<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A realidade ambiental brasileira do ESG \u00e9 marcada pela \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre desmatamento, mudan\u00e7a clim\u00e1tica e crise h\u00eddrica, que neste ano secou os reservat\u00f3rios de hidrel\u00e9tricas e obrigou o acionamento das usinas a \u00f3leo e g\u00e1s. O resultado: mais carbono na atmosfera e conta de energia el\u00e9trica mais cara. N\u00e3o s\u00f3. A escassez de chuvas, associada \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica global, trouxe novamente o fantasma dos apag\u00f5es e do racionamento de \u00e1gua nas cidades \u2013 e se replicou na infla\u00e7\u00e3o dos alimentos, prejudicando principalmente as camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 t\u00e9rmicas operando de modo cont\u00ednuo com custo de R$ 1.520 por megawatts-hora, extremamente alto se comparado com os R$ 100 por megawatt-hora que uma e\u00f3lica ou solar fornece.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio tem ra\u00edzes na derrubada de \u00e1rvores. Recente pesquisa do MapBiomas indica que a din\u00e2mica de uso da terra baseada na convers\u00e3o da floresta para pecu\u00e1ria e agricultura e a constru\u00e7\u00e3o de represas contribuem para a diminui\u00e7\u00e3o do fluxo h\u00eddrico. Com base em imagens de sat\u00e9lite, os dados indicam uma perda de superf\u00edcie de \u00e1gua de 15,7% entre 1985 e 2020, no Brasil.<\/p>\n<p>H\u00e1 91 anos n\u00e3o se viam n\u00edveis t\u00e3o baixos de \u00e1gua nos reservat\u00f3rios do Pa\u00eds como agora, e especialistas afirmam que essas mudan\u00e7as podem afetar o transporte de commodities e o suprimento de outras na\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que o Brasil \u00e9 o maior exportador de gr\u00e3os de soja, caf\u00e9 e a\u00e7\u00facar, e o segundo maior fornecedor de a\u00e7o e milho. Segundo analistas, caso se confirmem as previs\u00f5es de falta de chuva no per\u00edodo de outubro a abril, a infla\u00e7\u00e3o medida pelo IPCA deve ficar pr\u00f3xima aos 8% neste ano e no pr\u00f3ximo. E o PIB nacional pode ter uma perda de at\u00e9 dois pontos percentuais em 2022, ficando na estagna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O quadro preocupa nove em cada dez empres\u00e1rios brasileiros, segundo levantamento da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI) com base em quase 600 consultas. Os riscos se acumulam no tempo e poder\u00e3o se intensificar em fun\u00e7\u00e3o do agravamento da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, conforme os alertas da ci\u00eancia. Relat\u00f3rio da Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas (ANA) revela que, ao longo de 13 anos, as ocorr\u00eancias de secas cresceram 409% no Pa\u00eds. Na que ocorreu em 2013-2015 e atingiu fortemente o Sudeste, os pre\u00e7os da energia subiram e as ind\u00fastrias diminu\u00edram a produ\u00e7\u00e3o por falta de abastecimento. O aumento de custos prejudicou a competividade e a queda da economia foi quase quatro vezes maior do que a projetada antes da crise h\u00eddrica para 2015.<\/p>\n<p>Naquele ano, o mundo perdeu US$ 2,5 bilh\u00f5es devido \u00e0 escassez de \u00e1gua, conforme dados do CDP. O estudo colheu informa\u00e7\u00f5es de 405 companhias de capital aberto listadas em bolsas de v\u00e1rios pa\u00edses: quase dois ter\u00e7os (65%) relataram que est\u00e3o expostas a risco h\u00eddrico. No caso da multinacional francesa Engie, do setor el\u00e9trico, que teve redu\u00e7\u00e3o das receitas em 2014 devido \u00e0 falta de chuvas no Brasil, o impacto financeiro foi de US$ 223 milh\u00f5es.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O mundo das finan\u00e7as acorda \u2013 <\/strong>uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em ambiente pol\u00edtico-ideol\u00f3gico hostil aos temas ambientais e sociais, o Banco Central do Brasil (BC) \u2013 como \u00f3rg\u00e3o regulador da pol\u00edtica monet\u00e1ria e da estabilidade financeira \u2013 desempenha papel-chave para o avan\u00e7o da agenda ESG no Brasil. Neste ano, foram abertas duas consultas p\u00fablicas para o arcabou\u00e7o de normas destinadas a tratar riscos decorrentes das quest\u00f5es clim\u00e1ticas e socioambientais, visando a seguran\u00e7a do sistema financeiro e banc\u00e1rio. E, em 15 de setembro, o BC anunciou uma s\u00e9rie de novas resolu\u00e7\u00f5es (<em>consulte <a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/2021\/09\/23\/dicionario-notas-videos-dicas-afins\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a><\/em>).<\/p>\n<p>Segundo analistas, para uma institui\u00e7\u00e3o reconhecida por avan\u00e7ar na inclus\u00e3o financeira e inova\u00e7\u00f5es como o Pix e o <a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/2021\/09\/23\/dicionario-notas-videos-dicas-afins\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong><em>open banking<\/em><\/strong><\/a><em>,<\/em> navegar na seara ambiental \u00e9 um passo necess\u00e1rio diante do movimento global que re\u00fane os \u00f3rg\u00e3os reguladores dos v\u00e1rios pa\u00edses no sentido de direcionar o capital para a sustentabilidade do planeta.<\/p>\n<p>Na Resolu\u00e7\u00e3o n\u00ba 4.327, de 2014, que estabeleceu a Pol\u00edtica de Responsabilidade Socioambiental a ser implementada pelo sistema financeiro, o BC j\u00e1 havia dado a largada com debates que ganharam proje\u00e7\u00e3o internacional. Posteriormente, a Resolu\u00e7\u00e3o n\u00ba 4.557, de 2017, exigiu a incorpora\u00e7\u00e3o dos riscos socioambientais \u00e0 estrutura de gest\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es financeiras.<\/p>\n<p>Como pano de fundo, estavam o risco de ocorr\u00eancia de eventos meteorol\u00f3gicos extremos cada vez mais frequentes, com impactos nos neg\u00f3cios e resultados dos investimentos, e o processo de transi\u00e7\u00e3o para uma economia de baixo carbono. Em nota, o BC diz que \u201ca discuss\u00e3o ganhou ainda mais notoriedade na pandemia da Covid-19, dada a confirma\u00e7\u00e3o de que eventos disruptivos possuem alto potencial de desencadear crises sistemicamente severas. A tr\u00edade \u2018social, ambiental e clim\u00e1tica\u2019, que j\u00e1 era preocupante para a sociedade como um todo, tornou-se ainda mais relevante diante da expectativa de uma recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica mais sustent\u00e1vel e inclusiva\u201d.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, cabe ao BC, como propositor de regras aplic\u00e1veis \u00e0s institui\u00e7\u00f5es reguladas pelo Conselho Monet\u00e1rio Nacional (CMN), o papel de manter o sistema s\u00f3lido o suficiente para absorver poss\u00edveis impactos de eventos indesejados. \u201cMais compat\u00edveis com a nova realidade, as pol\u00edticas de responsabilidade tendem a ser um importante instrumento reputacional e de orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, para que as institui\u00e7\u00f5es conduzam os seus neg\u00f3cios rumo a uma economia mais sustent\u00e1vel, reduzindo, assim, impactos negativos\u201d, afirma a nota.<\/p>\n<p>As novas normas, fruto das consultas p\u00fablicas n\u00ba 85 e 86, encerradas para contribui\u00e7\u00f5es em 21 de junho, fazem parte do conjunto de medidas da Agenda BC#, que desde setembro de 2020 conta com a dimens\u00e3o sobre sustentabilidade. Entre as novidades, est\u00e1 a nova resolu\u00e7\u00e3o que estabelece a divulga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobre os riscos social, ambiental e clim\u00e1tico, com base nas recomenda\u00e7\u00f5es da Task Force on Climate-Related Financial Disclosures (TCFD).<\/p>\n<p>Segundo o BC, ser\u00e1 necess\u00e1ria a capacita\u00e7\u00e3o do quadro funcional sobre sustentabilidade, reformula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de responsabilidade, revis\u00e3o da estrutura de gest\u00e3o de riscos e comprometimento da alta administra\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, a expectativa \u00e9 a ado\u00e7\u00e3o de programas de verifica\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia da pol\u00edtica. Em setembro, a institui\u00e7\u00e3o lan\u00e7ou <a href=\"https:\/\/www.bcb.gov.br\/publicacoes\/relatorio-risco-oportunidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">relat\u00f3rio<\/a> sobre riscos e oportunidades sociais, ambientais e clim\u00e1ticas com potencial de impactar o sistema financeiro nacional.<\/p>\n<p><strong>Term\u00f4metro no portf\u00f3lio<\/strong><\/p>\n<p>Saber quanto a carteira de clientes contribui para a crise clim\u00e1tica e definir como deslocar o capital para evitar os impactos \u2013 e os riscos \u00e0 pr\u00f3pria estabilidade das finan\u00e7as \u2013 s\u00e3o hoje preocupa\u00e7\u00f5es de vida ou morte para os bancos. N\u00e3o basta economizar energia, reciclar o lixo das ag\u00eancias, dar mudinhas para correntistas ou faz\u00ea-los rodar calculadoras de carbono para ser mais ecol\u00f3gico no dia a dia. O desafio ganhou dimens\u00e3o macro, diante do movimento ESG global com reflexos nas novas regras do Banco Central.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es financeiras come\u00e7am a corrida por entender, no fim das contas, como os seus lucros est\u00e3o impactando o planeta. \u201cOlhar para as emiss\u00f5es de carbono de projetos e empresas financiadas \u00e9 o principal desafio\u201d, reconhece Luciana Nicola, superintendente de rela\u00e7\u00f5es institucionais, sustentabilidade e neg\u00f3cios inclusivos do Ita\u00fa Unibanco. A meta \u00e9 investir R$ 400 bilh\u00f5es at\u00e9 2025 em setores mais sustent\u00e1veis, o que representa um ter\u00e7o da carteira total, mas h\u00e1 uma quest\u00e3o estrat\u00e9gica para a ambi\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica fazer sentido: al\u00e9m de investir em quem faz certo, como influenciar os setores intensivos em gases de efeito estufa a emitir menos? Transferindo o capital para o baixo carbono? Tornando o cr\u00e9dito mais caro?<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o tem sido o trabalho de engajamento com a constru\u00e7\u00e3o de planos de mitiga\u00e7\u00e3o em conjunto com os clientes, ap\u00f3s um retrato do portf\u00f3lio para identificar os diferentes n\u00edveis de impacto. \u201cA ideia \u00e9 mobilizar empresas a entrar na jornada\u201d, afirma Nicola. Na metodologia Partnership for Carbon Accounting (PCAF), o banco mediu inicialmente as carteiras de ve\u00edculos com 800 megatoneladas de carbono e de im\u00f3veis: propriedades com prop\u00f3sito comercial, como hot\u00e9is, escrit\u00f3rios, resid\u00eancias para aluguel, no total de 304 edif\u00edcios. O plano agora \u00e9 conhecer as emiss\u00f5es de empresas de grande, m\u00e9dio e pequeno porte.<\/p>\n<p>\u201cCom base nisso, identificaremos os caminhos de mitiga\u00e7\u00e3o, ajudando clientes nos planos de transi\u00e7\u00e3o\u201d, diz Nicola. A barreira, segundo ela, est\u00e1 na falta de m\u00e9tricas tropicalizadas, o que dificulta avan\u00e7os em setores como agricultura e uso da terra, que representam 73% das emiss\u00f5es.<\/p>\n<p>A segunda metodologia \u00e9 o Paris Agreement Capital Transition Assessment (PACTA), que avalia como as emiss\u00f5es financiadas pelo banco est\u00e3o alinhadas ao Acordo de Paris, no limite de aumento de 1,5 grau. \u201cQueremos colocar o term\u00f4metro no portf\u00f3lio e definir como baixar a temperatura at\u00e9 2030, mas ainda n\u00e3o temos dados para saber o quanto estamos distantes\u201d, revela Nicola. Enquanto isso, a estrat\u00e9gia \u00e9 a gest\u00e3o de riscos, conhecendo e priorizando os de maior exposi\u00e7\u00e3o como emissores. \u201cEntre os cen\u00e1rios tra\u00e7ados pelo IPCC, do mais ao menos catastr\u00f3fico, adotamos o caminho do meio\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>\u201cA retirada de investimento em setores como carv\u00e3o e fumo, por exemplo, notadamente de impactos ambientais, sociais e de sa\u00fade, precisa de um planejamento porque os munic\u00edpios dependem economicamente dessa atividade e precisam de apoio \u00e0 migra\u00e7\u00e3o para outras culturas agr\u00edcolas\u201d, explica a executiva.<\/p>\n<p>Ela conta que o processo ESG no banco teve in\u00edcio h\u00e1 quatro anos, por meio de consultoria externa que identificou vetores de press\u00e3o e tend\u00eancias de m\u00e9dio e longo prazo. Em 2019, foram lan\u00e7ados dez compromissos de impacto positivo para os diferentes perfis de clientes. A sustentabilidade deixou de ser uma agenda geral e passou a ser atrelada ao desempenho dos executivos da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Plano Amaz\u00f4nia, um ano depois <\/strong>\u2013 ainda em busca de escala<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A import\u00e2ncia para o clima global eleva o tom das cobran\u00e7as na maior floresta tropical do planeta. H\u00e1 pouco mais de um ano, quando o desmatamento batia recordes, as imagens das queimadas no Brasil corriam o mundo e ONGs eram atacadas como vil\u00e3s, os tr\u00eas maiores bancos privados brasileiros \u2013 al\u00e9m do Ita\u00fa, o Bradesco e o Santander \u2013 formaram uma alian\u00e7a para canalizar investimentos na floresta em p\u00e9. O Plano Amaz\u00f4nia foi concebido com quatro prioridades: cadeia da carne, culturas sustent\u00e1veis, regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e bioeconomia, prevendo 10 a\u00e7\u00f5es objetivas, mas at\u00e9 o momento n\u00e3o destinaram investimentos em escala ou adotaram pol\u00edticas de exclus\u00e3o para quem desmata.<\/p>\n<p>A primeira demanda foi entender a complexidade da rela\u00e7\u00e3o entre conserva\u00e7\u00e3o e desenvolvimento econ\u00f4mico e buscar parcerias t\u00e9cnicas para tirar investimentos do papel, como cr\u00e9dito com taxa de juros que considera metas ambientais. De pr\u00e1tico, os bancos chamaram os tr\u00eas maiores frigor\u00edficos brasileiros \u2013 JBS, Marfrig e Minerva, respons\u00e1veis por 32% da carne amaz\u00f4nica \u2013 para analisar os compromissos j\u00e1 existentes na cadeia da pecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 necessidade de olhar o setor como um todo e saber os gargalos que geram pouca visibilidade\u201d, aponta Nicola. Para envolver tamb\u00e9m os pequenos e m\u00e9dios frigor\u00edficos da Amaz\u00f4nia, que representam a maior parte da produ\u00e7\u00e3o, a estrat\u00e9gia das \u00e1reas de risco dos bancos foi adotar as recomenda\u00e7\u00f5es de boas pr\u00e1ticas e prazos de adequa\u00e7\u00e3o do programa Boi na Linha, do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do documento com recomenda\u00e7\u00f5es, est\u00e1 sendo preparada uma lista de indicadores de performance (KPIs) de curto, m\u00e9dio e longo prazos para os bancos avaliarem suas carteiras de cr\u00e9dito ao setor. A primeira leva de dados dever\u00e1 estar pronta at\u00e9 dezembro, segundo Nicola. Para ela, a rastreabilidade da carne \u00e9 o ponto sens\u00edvel, cujas propostas de solu\u00e7\u00e3o dever\u00e3o ser replicadas aos demais bancos, por meio da Febraban, e aos mercados varejistas.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 bioeconomia, o compromisso \u00e9 investir inicialmente R$ 100 milh\u00f5es em cooperativas e agroind\u00fastrias de cadeias produtivas da Amaz\u00f4nia, como a do a\u00e7a\u00ed. Como suporte \u00e0 estrat\u00e9gia, foi encomendado <a href=\"https:\/\/amazonia2030.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/AMZ2030-Oportunidades-para-Exportacao-de-Produtos-Compativeis-com-a-Floresta-na-Amazonia-Brasileira-1-2.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estudo<\/a> sobre o mercado de produtos da floresta ao pesquisador da Universidade de Nova York Salo Coslovsky, que identificou alto potencial inexplorado para exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 no campo da regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria de pequenos produtores \u2013 quarto item do Plano Amaz\u00f4nia \u2013 nada avan\u00e7ou, porque os bancos dependem de decis\u00f5es de governo. S\u00f3 no primeiro semestre o governo lan\u00e7ou a t\u00e3o esperada ferramenta de an\u00e1lise dinamizada do Cadastro Ambiental Rural (CAR), que permite examinar at\u00e9 66 mil cadastros por dia, identificando a regularidade das propriedades, com checagem por imagens de sat\u00e9lite. A expectativa \u00e9 o sistema abranger todos os estados amaz\u00f4nicos at\u00e9 o fim do ano.<\/p>\n<p>\u201cDevemos reconhecer que a floresta vale mais em p\u00e9, o que n\u00e3o est\u00e1 registrado nas contas da economia nacional\u201d, afirma S\u00e9rgio Rial, presidente do Santander, em recente <em>live<\/em> do Plano Amaz\u00f4nia sobre o balan\u00e7o do primeiro ano. \u201cAntes a presen\u00e7a dos bancos considerava apenas a exist\u00eancia de PIB e n\u00e3o de pessoas e suas expectativas\u201d, afirma.<\/p>\n<p>\u201cCompartilhar responsabilidades \u00e9 um desafio a ser vencido, assim como ocorreu na vacina\u00e7\u00e3o contra a Covid-19\u201d, compara Marcelo Pasquini<em>, head<\/em> de sustentabilidade corporativa do Bradesco, integrante da NetZero Banking Alliance. O banco evolui na an\u00e1lise de risco do portf\u00f3lio corporativo, com dados que passaram a constar no relat\u00f3rio de sustentabilidade. No total, s\u00e3o R$ 412 bilh\u00f5es, com emiss\u00e3o de 10,6 milh\u00f5es de toneladas de carbono ao ano. Metade corresponde \u00e0 ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o, como a de cimento, e algumas j\u00e1 anunciaram metas <em>net zero<\/em> at\u00e9 2050.<\/p>\n<p>O objetivo \u00e9 investir R$ 250 bilh\u00f5es na ind\u00fastria de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, infraestrutura de energia, substitui\u00e7\u00e3o de frota e outros setores com vi\u00e9s ESG, em cinco anos. \u201cO primeiro passo \u00e9 quantificar emiss\u00f5es dos clientes para saber com quais trabalharemos prioritariamente para mudan\u00e7as. A ideia n\u00e3o \u00e9 excluir, mas ajudar na transi\u00e7\u00e3o\u201d, revela Pasquini. Ele explica: \u201cSe sairmos, o cr\u00e9dito passa para outro banco sem comprometimento e a mudan\u00e7a n\u00e3o ocorre\u201d.<\/p>\n<p>Segundo ele, a estrat\u00e9gia da inclus\u00e3o no lugar da exclus\u00e3o n\u00e3o \u00e9, por exemplo, simplesmente parar a produ\u00e7\u00e3o de cimento, que influencia o desenvolvimento nacional, mas investir em transforma\u00e7\u00f5es nos processos fabris, para que n\u00e3o sejam sucateados e emitam mais gases estufa. O desafio inclui sensibilizar o conselho de administra\u00e7\u00e3o das empresas, em contraponto a vis\u00f5es negacionistas: \u201c\u00c9 essencial o engajamento tamb\u00e9m de governos para maior alcance de impactos positivos, porque a sustentabilidade do setor financeiro est\u00e1 ligada diretamente \u00e0 sustentabilidade do Pa\u00eds\u201d, completa o executivo.<\/p>\n<p>[<em>Um trecho deste texto foi alterado no dia 22\/11\/2021, no t\u00f3pico &#8220;Biodiversidade na agenda&#8221;.<\/em>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A urg\u00eancia clim\u00e1tica \u2013 conectada a desmatamento, escassez h\u00eddrica, crise energ\u00e9tica e infla\u00e7\u00e3o \u2013 destaca-se no componente ambiental do ESG no Pa\u00eds. Empresas e setor financeiro buscam mitigar riscos e aproveitar oportunidades em um horizonte curto para n\u00e3o acontecer o pior Por S\u00e9rgio Adeodato _\u00a0Foto: YinYang\/ iStock Genebra, Su\u00ed\u00e7a, setembro de 2009. 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